Doria avança no PSDB de São Paulo, reduto de Alckmin

Estratégia é eleger presidente de diretório municipal e obter maioria na executiva

Adriana Ferraz e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2017 | 05h00

Um ano após vencer a eleição para a Prefeitura de São Paulo no primeiro turno, o tucano João Doria contraria o discurso do gestor não político para avançar no jogo partidário em busca de apoio do PSDB paulista, até então reduto exclusivo do governador Geraldo Alckmin, de olho em 2018. A estratégia inclui eleger o presidente do diretório municipal, obter maioria na executiva e chegar com força à convenção estadual. O movimento visa a criar musculatura para uma possível prévia presidencial.

A ofensiva também passa por uma maior presença de Doria em redutos tradicionalmente dominados por aliados de Alckmin, como o interior paulista. Na semana passada, o prefeito esteve em Franca, onde se encontrou com lideranças políticas locais, almoçou com funcionários de uma empresa calçadista e discursou para uma plateia de 2 mil pessoas em evento corporativo. Agendas semelhantes já foram cumpridas em Barretos e Ribeirão Preto, onde o sinal de alerta da equipe do governador soou pela primeira vez durante a Agrishow, principal feira agrícola do País que, neste ano, teve o prefeito paulistano como estrela.

O cicerone de Doria no interior paulista é um veterano: Cesar Gontijo, secretário-geral do partido em São Paulo desde 2007. Um dos fundadores da sigla, Gontijo, que já foi vereador por Barretos e candidato a prefeito na cidade, é o dono dos contatos de interesse de Doria, sendo o atual encarregado de apresentar a ele políticos e empresários que exercem influência regional no Estado.

Com o futuro presidente do diretório municipal praticamente definido – o vereador João Jorge, escolhido por Doria –, o prefeito conta com aliados como Gontijo para exercer influência na convenção estadual, marcada para 11 de novembro, com a participação de cerca de 3,8 mil delegados. O objetivo é ganhar espaço também na executiva estadual, que, pela tradição, tem 105 membros. A composição, extraoficial, se dá pelo líder da bancada na Assembleia, por 45 nomes indicados pela base, 18 por deputados, dez por prefeitos e o restante escolhidos segundo critérios políticos. 

A movimentação já é observada pelo Palácio dos Bandeirantes, onde aliados do governador Geraldo Alckmin classificam o avanço de Doria na máquina partidária como “agressivo”. Se conseguir de fato ampliar sua participação no partido, Doria chegará mais forte à convenção nacional, em dezembro, e, consequentemente, para a disputa de uma possível prévia. “Esse clima de ‘Fla-Flu’ é ruim para o PSDB”, diz o secretário estadual da Assistência Social, Floriano Pesaro. “Só divide, prejudica e num momento em que deveríamos estar unidos em torno de uma candidatura definida já, que, ao meu ver, deve ser do governador Geraldo Alckmin.”

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Minha história de 26 anos no partido não se restringe à vinculação com Doria ou Alckmin. Não podemos reduzir o partido a essa situação. São dois bons candidatos.
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Cesar Gontijo, Secretário Geral do PSDB-SP

Xadrez. Gontijo, no entanto, nega atuação para Doria. “Minha história de 26 anos no partido não se restringe à vinculação com Doria ou Alckmin. Não podemos reduzir o partido a essa situação. São dois bons candidatos”, afirma. Diretamente interessado nessa batalha, o vice-prefeito da capital, Bruno Covas, diz não acreditar que um dos dois conseguirá o domínio do partido. “A história do PSDB mostra isso, o partido tem muitas lideranças em São Paulo para ser controlado por A, B ou C.” 

Bruno é outra peça-chave no xadrez político de Doria. Conhecedor do estatuto e das normas internas que regem os diretórios, o vice-prefeito ainda tem a seu favor – e de Doria – a boa influência de seu sobrenome no litoral paulista, outro reduto do governador que em breve entrará na disputa. A região tem sido “blindada” pelo prefeito de Santos, Paulo Alexandre Barbosa, mas reúne um grupo considerável de lideranças ligadas a Bruno, que é da cidade.

Em outra frente, Doria também se aproximou dos prefeitos do ABC Paulista, que nas eleições do ano passado viu o PSDB acabar com o domínio do PT na região – pela primeira vez, desde 1982, o partido não venceu a disputa pelo comando de nenhuma das sete prefeituras, enquanto os tucanos levaram as duas principais: Santo André e São Bernardo do Campo, cujo prefeito, Orlando Morando, já foi “indicado” pelo prefeito paulistano para a executiva nacional tucana em vaga ainda a ser criada. 

Interlocutores de Doria e de Alckmin admitem de forma reservada que a disputa entre os dois chegou de fato ao coração do partido. As convenções municipal e estadual já estão contaminadas, em uma mostra do que pode ser a prévia para indicação à corrida presidencial. Por enquanto, mantendo sua estratégia, Alckmin diz só observar. Mas o contra-ataque deve vir. Se Alckmin é o único adversário de Doria pela vaga de candidato do PSDB, a lista de concorrentes internos pelo comando da ala paulista do partido tem uma lista de nomes, do senador José Serra ao ex-governador Alberto Goldman e o vice-presidente nacional do PSDB, José Aníbal.

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