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Doria 2018?

Aliados apostam que o tiro do prefeito é de curto prazo; de 2 anos, mais especificamente

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2017 | 19h33

Tudo mudou na sede da Prefeitura de São Paulo, no Anhangabaú. Do sabonete do banheiro a uma moderna sala de situação com uma mesa de reuniões em “U” e grandes telões de LED, o prédio antigo ganhou toques de modernidade do novo inquilino, o prefeito João Doria Jr., do PSDB, eleito num inédito primeiro turno.

Em um mês de mandato - ou gestão, no léxico que ele prefere - Doria se vestiu de gari, instituiu uma multa para secretários que chegam atrasados a reuniões, apagou grafites e se desculpou depois, comprou briga com pichadores, conseguiu remédio de graça passando a sacolinha entre empresários e imprimiu um ritmo de reality show ao modorrento dia a dia da administração.

O novo estilo não passou despercebido: circulam nas redes sociais memes com os “uniformes” já envergados pelo tucano, sua onipresença nas ruas (sempre fartamente registrada nas redes sociais) e a forma nada heterodoxa de governar.

Pesquisa do Ipespe mostra que o estilo Doria, por ora, foi bem recebido: 66% dizem aprovar a atuação do prefeito, contra apenas 21% que o rejeitam.

Mais que os números globais, chamaram a atenção do estafe de Doria os substratos da pesquisa. Ela mostra que os “atributos” que o tucano quis reforçar colaram: entre os adjetivos atribuídos a Doria, o primeiro, disparado, é “trabalhador”, justamente o slogan da campanha. O segundo é “ousado”.

Entre as ações com mais recall aparecem as mais midiáticas: combate aos pichadores, aumento da velocidade das Marginais e o combo Cidade Linda + Doria gari. 

E um dado que não passou despercebido e ecoou no Palácio dos Bandeirantes: o pupilo deu um upgrade na popularidade do padrinho, Geraldo Alckmin, que alcançou inéditos 47% de ótimo e bom numa capital normalmente cética com ele.

Por tudo isso, a aposta entre os aliados de Doria é que o tiro dele é de curto prazo. Mais especificamente, uma aposta de dois anos.

Daí a decisão política, reiterada a todos os secretários, de não comprar briga com o PT nem apontar “herança maldita” de Fernando Haddad. Eleito com o discurso da antipolítica, Doria não quer parecer que usa uma desculpa esfarrapada de político para não entregar o que prometeu. Quer entregar e cobra entregas, ainda que seja necessário pegar atalhos à burocracia pública tradicional.

Foi assim com o Corujão da Saúde e a doação de remédios em caráter emergencial por laboratórios privados. Na construção da mística do João Negociador, já ficou famosa internamente uma reunião em que um empresário do setor farmacêutico que se dispôs a doar medicamentos ameaçou recuar e foi enquadrado duramente por Doria.

Com uma prefeitura sem dinheiro e com problemas crônicos em áreas vitais, essa operação de colocar um sabonete cheiroso na aparência da gestão demonstra ser um poderoso instrumento de popularidade na largada.

Resta saber se terá fôlego para manter o prefeito nesses índices a 2018, ou 2020. Ele repete que será prefeito por quatro anos. Mas no entorno o discurso já mudou: aliados dizem que, se “convocado” por Alckmin para ser candidato a governador, ele não terá como recusar. Daí a presença constante de Bruno Covas a seu lado - o neto de Mario Covas não pode ser um “vice invisível”, dizem assessores, porque tem grande chance de assumir a Prefeitura. O primeiro teste será nesta semana, quando Doria vai a Dubai e ele assume. Não por acaso, sua agenda já está coalhada de eventos na linha “acelera São Paulo” do titular. 

Sem Alexandre de Moraes, indicado por Michel Temer para o Supremo Tribunal Federal (STF), no páreo para a sucessão de Alckmin, a chance de termos o João Trabalhador nas versões caipira, caiçara e mano do ABC não são nada remotas.

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