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Donos do poder

Universalização da Lava Jato não melhorou a situação do ex-presidente Lula

João Domingos, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2017 | 05h02

Defendida pelo PT, que chegou a recorrer à ONU contra o juiz Sérgio Moro, sob o argumento de que o magistrado de Curitiba era parcial, perseguia Lula e fechava os olhos para os políticos de outros partidos, a universalização da Lava Jato não serviu para melhorar a situação do ex-presidente. A partir das delações de executivos e ex-executivos da Odebrecht, os políticos mais importantes dos outros partidos também serão investigados por corrupção, lavagem de dinheiro e uso de caixa 2. Mas a situação de Lula não mudou. 

Fatos novos surgiram. Como a afirmação do ex-presidente da OAS Léo Pinheiro de que Lula o orientou a destruir provas de uso de caixa 2 e pagamentos ao PT no exterior, caso existissem, e de que o ex-presidente era o dono do triplex do Guarujá, pioraram a situação de Lula. E agora, com a possibilidade de uma delação por parte do ex-ministro Antonio Palocci é que as coisas prometem se complicar de vez para o ex-presidente e para o PT. 

É bom lembrar que Palocci está longe de ser um qualquer no PT ou na estrutura dos governos petistas de Lula e Dilma, que duraram 13 anos, quatro meses e 12 dias. Além de ministro da Fazenda de Lula e da Casa Civil de Dilma – cargos que deixou por ter o nome envolvido em escândalos –, Palocci foi coordenador de campanha dos dois. Mesmo depois de deixar o governo de Lula e o de Dilma, Palocci manteve forte influência na administração petista. Ao juiz Sérgio Moro ele disse ter o que contar. Tem mesmo, por certo.

Levando-se em conta a overdose na divulgação das delações negociadas com o Ministério Público, os depoimentos dados à Justiça, e as entrevistas de investigados, é possível observar dois tipos de atitude por parte dos envolvidos na Lava Jato. 

Os políticos e os que participaram das campanhas eleitorais têm mostrado humildade. O que Antonio Palocci fez diante de Sérgio Moro, quando se pôs à disposição para fazer uma delação e revelar coisas que, segundo ele, serão importantes para o País, e darão à Lava Jato mais um ano de trabalho, foi um pedido de perdão. Palocci não se ajoelhou diante de Moro porque é possível que a liturgia do cargo de juiz não permita esse tipo de gesto por parte daquele que depõe. Os marqueteiros João Santana e Mônica Moura tiveram atitude semelhante. Derramaram respeito.

O executivos e ex-executivos das empresas têm agido de forma diferente. Falam pelos cotovelos, expõem superioridade, mostram uma impressionante segurança sobre o que dizem ou delatam.

Talvez não tenham como agir de forma diferente. Até pouco tempo eram eles os donos do poder, eram quem mandava na República. Pelo que revelaram nas delações, o presidente da República, não interessa o nome dele, os dirigentes do Legislativo, não interessa também o nome deles, eram fantoches criados a partir da relação promíscua entre o privado e o público. 

Os apelidos que os empreiteiros puseram nos principais políticos do País que receberam doações deles, seja por caixa 1, caixa 2, propina ou o que for, é uma demonstração de quanto se julgavam superiores. Quem chama alguém por aquelas alcunhas se considera inatingível, não teme um processo nem tomar um murro na cara por tratamento desrespeitoso. O presidente Lula era o “Amigo” da Odebrecht e o “Brahma” da OAS. Outro era o “Decrépito”, uma outra a “Coxa”, mais um o “Angorá”, aquele o “Índio”, e assim vai. 

Palocci era o “Italiano”. No depoimento a Moro ele disse que esse apelido não era dele porque nunca foi tratado assim pela Odebrecht. Não foi mesmo. De frente ninguém era chamado pelo codinome. Só pelas costas, só nas planilhas de pagamento, só para o recebimento de propinas. Mais um exemplo de que o “Lindinho” ou o “Todo feio” eram tratados apenas como serviçais. 

 

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