Eraldo Peres/AP Photo
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'Donos da verdade' fazem campanha 'em cima dos mortos', diz Bolsonaro sobre CPI da Covid

Presidente critica aqueles que, segundo ele, se arvoram em 'pais da ciência' e volta a defender cloroquina contra a doença

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2021 | 22h48

RIO - O presidente Jair Bolsonaro criticou nesta quarta, 5, aqueles que, disse, se arvoram em “pais da ciência” e em “donos da verdade” e, segundo ele, fazem “campanha em cima dos mortos” na CPI da Covid do Senado. Bolsonaro também voltou a defender o uso da cloroquina e o tratamento precoce contra a doença, que têm sido muito criticados no colegiado, cujas sessões começaram nesta semana. As declarações do presidente vieram depois de depoimentos dos ex-ministros Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, ambos contrários ao medicamento, cuja eficácia não foi comprovada cientificamente.

“Eu tomei hidroxocloroquina, no dia seguinte estava bom. David Uip (ex-coordenador do grupo de combate ao coronavírus do governo de São Paulo) tomou. Espero que seja convocado pela CPI", declarou. "Aqueles que estão se arvorando agora como pais da ciência na CPI, alguns poucos ali, donos da verdade, eu acredito na maioria deles, que farão a coisa certa, deviam ter procurado lá atrás. Onde nós erramos? O que poderia ter feito de melhor? Ficam atrás de holofote da imprensa para poder aparecer, fazendo uma campanha em cima de mortos. Isso é inadmissível".

Bolsonaro insistiu no tratamento precoce, condenado por médicos como ineficaz e até perigoso. "Passou a ser crime falar em tratamento imediato? Eu quero que os que são contra me apresentem uma alternativa. Ou vão ficar no protocolo do  Mandetta? 'Fiquem em casa, quando sentir falta de ar quase morrendo vai para o hospital'?", ironizou.

Bolsonaro também fez novas críticas às medidas de distanciamento social para combater a pandemia. Falou novamente da possibilidade de editar um decreto presidencial para reafirmar liberdades garantidas pela Constituição - no caso, para liberar as atividades econômicas.

"Estou falando demais ou vou ter que assinar um decreto pra dar liberdade a esse povo? É um crime o que estão fazendo no Brasil, com essa política indiscriminada de lockdown", afirmou, em entrevista à noite, nesta quarta-feira no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro.

Referindo-se a declarações dadas pela manhã, ele afirmou: "Eu frisei muito o Artigo 5 da Constituição (que fala sobre direitos e garantias) e falei que é um pleonasmo abusivo um decreto com os incisos do Artigo 5. Dizer que o leite é branco, o café é preto, o açúcar é doce. Será que eu tenho que baixar um decreto nessa linha?"

Presidente compara vírus a invasor que deve ser emboscado

Bolsonaro questionou os efeitos econômicos das medidas contra a covid-19: "Se coloque na situação do chefe de família que perdeu o emprego, não pode mais vender churrasquinho de gato na esquina, biscoito Globo na praia, como essas pessoas estão sobrevivendo?", perguntou.

O presidente exaltou a assistência prestada pelo governo federal por meio do auxílio emergencial. "Só em 2020 nós pagamos de auxílio emergencial mais que os últimos dez anos de Bolsa Família, mais que os oito do governo Lula. Quero pagar mais? Quero. Mas o Brasil não pode continuar se endividando. Tem que voltar a trabalhar", afirmou.

Em seguida , o presidente reafirmou a necessidade de enfrentar a doença, comparando-a a uma pessoa que invade uma casa. "Temos que enfrentar o vírus. É igual alguém que está em casa, começa a ouvir barulho na cozinha de casa e vai pra debaixo da cama. Tem que pegar uma arma e esperar o cara para emboscar. Senão, ele vai entrar e barbarizar sua família. O vírus é a mesma coisa, tem que lutar", concluiu.

Também se referiu a um suposto episódio da Segunda Guerra Mundial. "Temos que buscar alternativas. As grandes curas foram de tentativas. Como na guerra do Pacífico a questão da transfusão com água de coco. Se não fosse a água de coco, teria morrido muita gente", comparou Bolsonaro.

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