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Donadon tenta se adaptar à prisão contando sua história a outros detentos

Na Penitenciária da Papuda, onde está encarcerado há quase um mês, o deputado condenado por peculato e formação de quadrilha deixou de ser 'excelência' e passou a ser o 'interno Natan'

Daiene Cardoso e Ricardo Della Coletta , Agência Estado

23 de julho de 2013 | 21h21

Brasília - Condenado a 13 anos, 4 meses e 10 dias de reclusão por formação de quadrilha e peculato, o deputado federal Natan Donadon (sem partido/RO) faz 46 anos no próximo sábado (27) e no dia seguinte completará um mês de encarceramento na Penitenciária do Distrito Federal I, no Complexo da Papuda.

Prestes a perder o mandato parlamentar, Donadon despertou a curiosidade dos colegas por ser o primeiro deputado desde a Constituição de 1988 a dividir uma ala com criminosos condenados pelos mais diversos crimes e hoje passa boa parte do tempo contando sua trajetória política aos "novos colegas". Entre os carcereiros, Donadon não é chamado de "Excelência" e sim de "interno Natan". Para os detentos, o ex-peemedebista é simplesmente Natan.

Instalado numa cela individual considerada "confortável", Donadon não tem nenhum contato físico com os vizinhos de ala. Da própria cela, o deputado conversa com os outros detentos, fala sobre sua condenação e sobre a vida de parlamentar. "Essa troca de informação é comum entre eles. A curiosidade é natural, nunca teve deputado preso, como nunca teve na história deste País", comentou uma pessoa próxima do novo cotidiano de Donadon. O deputado tem causado uma boa impressão entre os presos e os funcionários da Papuda por sua simpatia e educação.

Apesar da fase difícil de adaptação, Donadon considera bom seu convívio com os demais presos, não lamenta sua vida no presídio, não dá sinais de depressão e está bem fisicamente. Ainda assim, sua família fez chegar aos ouvidos dos ex-colegas de Câmara dos Deputados que ele estava enfrentando a provocação dos detentos e que temia o momento em que fosse transferido para uma cela coletiva.

"A preocupação da família é normal", disse o sobrinho do deputado, Marco Antonio Donadon. À direção do presídio, o parlamentar negou a informação e ouviu que não há perspectiva de transferência para uma cela coletiva por "questão de segurança".

O deputado está numa área para 20 presos, com uma biblioteca por bloco, celas em concreto com colchão, espaço para livros e sua Bíblia (ele é evangélico), além do solário, onde toma suas duas horas diárias de banho de sol.

O único aparelho eletrônico permitido é a TV, mas só é liberada para presos com bom comportamento. Natan ainda não foi autorizado a instalar a sua porque está em processo de avaliação pela direção do presídio. De sua cela individual, o "interno Natan" recebe até quatro visitantes uma vez por semana e as visitas íntimas já estão liberadas.

Donadon trocou o terno e gravata de parlamentar por roupas brancas simples, o "uniforme informal" da Papuda, providenciado por parentes. Sem regalias, ele não recusa as"quentinhas" fornecidas por uma empresa terceirizada. Na Papuda, os presos recebem três refeições diárias (o cardápio é preparado por nutricionistas) e os familiares podem levar frutas, biscoitos e produtos de higiene pessoal.

Se tivesse algum problema de saúde, o deputado teria direito a receber refeições balanceadas, como qualquer outro preso. Na próxima quarta-feira, dia de visita, Donadon não poderá comemorar seu aniversário com bolo porque o doce é vetado pela segurança do presídio.

Enquanto o deputado se adapta à nova vida no presídio, sua mulher, Rosângela, e seus dois filhos buscam uma nova residência em Brasília. A família já recebeu a ordem para desocupar, até o dia 11 de agosto, o apartamento funcional onde vivem na Asa Norte. A família decidiu ficar no Distrito Federal durante o tempo em que o deputado permanecer preso na Papuda. Donadon terá de cumprir pelo menos dois anos e dois meses em regime fechado para poder se beneficiar da progressão de pena.

Defesa. Amigo pessoal, o advogado Gilson César Stefanes fará a defesa do deputado no processo de cassação em trâmite na Câmara. Stefanes, que conhece o parlamentar desde 1976, vai apresentar a defesa escrita à Comissão de Constituição e Justiça e Cidadania (CCJ) logo após o retorno do recesso, no início de agosto. A cassação do deputado será decidida pelo plenário.

Donadon foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) pelo desvio de recursos da Assembleia Legislativa de Rondônia, onde ele ocupava o cargo de diretor financeiro. Segundo o Ministério Público, o esquema funcionou de 1995 a 1998, por meio de contrato simulado de publicidade por serviços que não eram prestados. Os desvios, segundo o MP, somam R$ 8,4 milhões.

Stefanes vai centrar a defesa na tese de não era da responsabilidade de Donadon fiscalizar se os serviços de comunicação contratados estavam, de fato, sendo prestados. "O Natan apenas fazia os pagamentos. Não era ele quem tinha que averiguar se os serviços estavam sendo prestados ou não", justificou Stefanes.

O advogado, que é de Vilhena (RO) - a mesma cidade do deputado - e está hospedado no apartamento funcional onde ainda vive a família Donadon, também argumenta que o parlamentar não tirou proveito dos desvios.

"Se tinha esquema (na Assembleia), ele (Donadon) não se beneficiou". Ele também considera "político" o julgamento que o amigo foi submetido no STF. "Não fosse o processo, ele já teria chegado a governador em Rondônia", disse.

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