Dona de casa militou contra a ditadura em Minas Gerais

Sob seu comando, o movimento mineiro feminista pela anistia ganhou um caráter mais radical

Eduardo Kattah, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2009 | 19h24

Em meados de 1977, manifestantes que participavam de um ato contra a prisão de estudantes que tentavam realizar em Belo Horizonte o 3º Encontro Nacional da UNE se surpreenderam quando uma senhora de 61 anos tomou o microfone para repudiar a "feroz" repressão do regime militar. A dona de casa Helena Greco condenou a própria geração, que na sua avaliação nada fez para impedir que uma ditadura se instalasse no Brasil. Casada com um reconhecido médico da capital mineira, mãe de três filhos, formada em farmácia, mas sem nunca ter exercido a profissão, Dona Helena Greco - como ficaria conhecida mais tarde - estreava na militância política.

 

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Em pouco tempo, a mulher que num arroubo deixou a residência localizada em frente ao 12º Batalhão de Infantaria, no bairro Barro Preto, para engrossar o protesto no Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina da UFMG, se tornaria, ao lado de Terezinha Zerbini, em São Paulo, uma das principais "damas" da luta pela anistia no País. Dois anos antes, Terezinha, mulher do general cassado Euryales de Jesus Zerbini, havia lançado o Movimento Feminino pela Anistia (MFPA), que se espalhou por vários estados e contribuiu decisivamente para a promulgação da Lei 6.683, de 28 de agosto de 1979.

 

Em Minas, Terezinha já havia se reunido com um núcleo de mulheres, que se impressionaram com o discurso de Dona Helena na UFMG e a convidaram para fazer parte do movimento. Dias depois, ela não só participou da constituição, como foi eleita a presidente da seção regional do MFPA - que chegou a ter cerca de 300 participantes. Dona Helena não tinha nenhum parente preso, assassinado ou desaparecido, mas se pautava pelas concepção humanista e se dizia socialista.

 

Sob seu comando, o movimento mineiro feminista pela anistia ganhou um caráter mais radical. "Aqui não era esse negócio de busca da reunificação da família brasileira ou de reconciliação nacional, nada disso. Era um combate aberto mesmo ao regime militar", lembra a historiadora Heloísa Greco, filha de Dona Helena, que também participou do movimento. "A luta que acho que ela encarnou muito bem e elaborou de forma consistente era uma luta contra a ditadura militar no seu arcabouço ideológico e a doutrina de segurança nacional". Boa parte das militantes pela anistia na capital mineira era originária do movimento estudantil e do incipiente movimento feminista. "Éramos bastante jovens e já tínhamos atuação política", recorda a economista Maria Dirlene Marques.

 

A união dessa juventude com a aguerrida Dona Helena resultou em ameaças e atentados contra as mulheres, atribuídas a grupos denominados anticomunistas. As reuniões semanais eram realizadas na Igreja São Francisco das Chagas, no bairro Carlos Prates, que pelo menos por duas oportunidades foi alvo de bombas. A residência presidente do movimento também não escapou de atentados. "Além ameaças por telefone, cartas, grampos e violação de correspondência", ressalta Heloísa.

 

Alvo constante, em abril de 1978, Dona Helena encontrou um bilhete no para-brisa de seu carro: "Olho por olho. A cada ação uma reação", dizia o comunicado assinado pelo GAC (Grupo Anticomunista). A presidente do MFPA-MG, contudo, nunca se intimidou. "Era uma figura que nos dava uma certa esperança da luta ir adiante", observou Antônia Vitória Aranha, ex-integrante do movimento e irmã de Idalísio Soares Aranha Filho, desaparecido na guerrilha do Araguaia.

 

Vanguarda - Dona Helena, que depois chegaria a presidir o Comitê Brasileiro de Anistia em Minas, atualmente está com 93 anos e continua morando em Belo Horizonte, na mesma casa, em frente ao batalhão do Exército. A idade avançada impede que ela dê entrevistas e participe de atividades. Sua trajetória política, no entanto, não se resumiu à campanha pela anistia. Dona Helena ajudou a fundar o PT e foi vereadora por nove anos na capital, de 1983 a 1992, com atuação centrada na defesa dos direitos humanos.

 

Para a filha, ela e Terezinha protagonizaram uma época em que as mulheres tiveram papel de vanguarda. "Desde 1970 as mães, irmãs, companheiras, filhas dos presos políticos e mortos e desaparecidos já estavam acumulando forças para isso (a anistia). O que tinha uma característica familiar deu um salto de qualidade para a questão política", salientou.

 

Três décadas depois da promulgação da Lei 6.683, mulheres que participaram do Movimento Feminino pela Anistia em Minas e parentes de desaparecidos políticos ainda cobram a uma medida ampla geral e irrestrita, como exigia o conjunto dos movimentos de resistência ao regime militar.

 

Para entidades como o Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania, a anistia deveria abranger seus "princípios programáticos". Entre eles, a responsabilização jurídica do Estado e dos agentes da repressão "por praticarem crimes de lesa humanidade"; a erradicação da tortura; o esclarecimento das circunstâncias em que ocorreram os assassinatos dos opositores da ditadura e localização dos restos mortais dos desaparecidos políticos. "O que existe em termos de política de Estado em relação a essas questões é um jogo de cena", acusa a historiadora Heloísa Greco, que preside o instituto. "O que prevalece enquanto política de Estado é a estratégia do esquecimento".

 

Atualmente, a crítica mais recorrente é em relação à ausência de representantes da sociedade civil e, principalmente, de familiares dos desaparecidos na expedição - sob o comando do Ministério da Defesa - de busca dos restos mortais dos guerrilheiros no Araguaia.

 

"Isso está dentro de uma agenda que exclui todos aqueles princípios da luta pela anistia pelos quais a gente batalhou", reclama Heloísa. "A reivindicação era uma anistia ampla, geral e irrestrita e isso só aconteceu para os torturadores. Para o nosso lado, a anistia foi parcial e restrita", afirma a pedagoga Valéria Costa Couto, irmã de Walkiria Afonso Costa, uma das guerrilheiras desaparecidas no Araguaia. "Quando eles aceitam a anistia da forma que eles aceitaram, foi para enfocar o esquecimento. É fácil jogar as coisas para debaixo do tapete".

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