Dom Pedro Casaldáliga celebra última romaria

No último fim de semana, em Ribeirão Cascalheira (MT), a 2500 quilômetros de Itaici (SP) - onde os bispos do Brasil renovam seus estatutos para atender a uma demanda do Vaticano - Dom Pedro Casaldáliga reuniu militantes, católicos e fiéis de outras igrejas e religiões, de todo o Brasil e do mundo, e celebrou a memória dos mártires da América Latina. Memória de homens, mulheres e crianças de diferentes raças, assassinados por lutarem por um mundo mais justo, fraterno, pelos direitos dos índios, dos negros, das minorias, dos trabalhadores, pela ecologia, contra a violência e a tortura, pelos direitos humanos em geral, pela reforma agrária e pela paz. A Romaria dos Mártires da Caminhada da América Latina lembrou também os 25 anos da morte do Padre João Bosco Penido Burnier. Esse jesuíta era missionário entre os índios Baikiri e os posseiros pobres, na Diocese de São Félix do Araguaia. No dia 11 de outubro de 1976, ele e Dom Pedro rezavam a novena de Nossa Senhora Aparecida, no povoado de Ribeirão Bonito. Informados de que duas sertanejas, Margarida e Santana, estavam sendo torturadas na cadeia da delegacia local, eles foram interceder pelas mulheres. Quatro policiais militares os interpelaram, o Padre foi agredido e recebeu uma bala a queima-roupa no crânio. Após a missa de sétimo dia, a população resolveu sair, em procissão, até a porta da delegacia. Ao chegar lá, libertaram os presos e destruíram o prédio. No seu lugar, fincaram uma cruz. ?Era a cruz da libertação no lugar da cadeia do cativeiro?, relembrou Dom Pedro, na noite do domingo passado, pouco antes de sair para a caminhada e a Vigília em memória dos mártires.Este foi o último ano em que Dom Pedro, uma das mais fortes lideranças da Teologia da Libertação no mundo, esteve à frente dessa romaria, que se repete a cada cinco anos. Em 2003, Dom Pedro completa 75 anos e, como todos os bispos da Igreja Católica (a exceção do Bispo de Roma), deverá se afastar do cargo. Autor de mais de 50 livros em português, espanhol e catalão, traduzidos em diversos idiomas, além de roteiros de filmes, vídeos, CDs e músicas, Dom Pedro recebeu vários prêmios internacionais por sua vida de militância. A sua ?Missa dos Quilombos? tem música de Milton Nascimento.O Santuário dos Mártires da CaminhadaApós 33 anos como bispo de São Félix, região pobre e violenta, Dom Pedro Casaldáliga deixará muitas histórias de luta pelo direito dos índios, dos posseiros, dos torturados. E também, uma modesta e bela construção às margens da rodovia 158, no local onde antes estava a cadeia: o Santuário dos Mártires da Caminhada, principal atração da pequena cidade Ribeirão Cascalheira, com seus 15 mil habitantes. Construído com ajuda internacional, principalmente da Espanha, seu país de origem, o Santuário tem 16 galerias de fotos e gravuras de mártires do Brasil e da maioria dos países da América Latina: Santo Dias, metalúrgico militante da Pastoral Operária, assassinado quando fazia piquete de greve em São Paulo, em 1979. A Prefeita Dorcelina Folador, eleita com 80% dos votos de Mundo Novo (MS), deficiente (pela poliomielite), porém conhecida por ?eficientíssima?, foi assassinada aos 36 anos, em 1999.O padre salesiano e indigenista Rodolfo Lunkenbein e o índio Simão Bororo, assassinados por um bando armado que invadiu a aldeia Meruri (MT), em 1976. O internacionalmente reconhecido Chico Mendes. Vladimir Herzog, jornalista e nomeado ?Mártir da Verdade?. Zumbi dos Palmares, o Patriarca do Povo Negro, ao lado de Sepé Tiaraju, o Patriarca da Causa Indígena, martirizado junto a mais 1500 Guarani, em 1756, nas Missões do Rio Grande do Sul. Anastácia, a Matriarca da Causa Negra, presa a ferros até a morte, no século XVIII, por sua resistência contra os maus tratos às mulheres negras.Dos demais países da América Latina, são homenageados, entre outros, o bispo Dom Oscar Romero, assassinado no altar onde acabara de celebrar a Eucaristia, em 1980, em El Salvador. Os 45 índios de Chiapas, México, na maioria mulheres e crianças, que rezavam e jejuavam pela paz e foram massacrados, em 22 de dezembro de 1997.Atrás da mesa do altar, um grande e belo painel de Cerezo Barredo mostra o Cristo Libertador caminhando à frente de legião de mártires. Esse artista plástico espanhol tem murais gigantes espalhados por todo o mundo. Suas interpretações da Palavra de Deus são sempre engajadas nas realidades locais, com objetivos didáticos e de reconhecimento da luta dos oprimidos. Do lado oposto ao altar, no alto, a frase do Evangelho de João (15, 13): ?Não há amor maior do que aquele que dá a sua vida por seus irmãos?. Vidas pela vidaA grande maioria dos 3000 romeiros que lotaram Ribeirão, religiosos ou não, são militantes das organizações populares. Representavam as CEBs -Comunidades Eclesiais de Base, o CIMI - Conselho Indigenista Missionário, o CEBI - Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, as pastorais da terra, operária, dos migrantes, da juventude, o MST e o Movimento Fé e Política. Modestos, chegaram em ônibus fretados, pelas péssimas estradas de pó e buracos do Brasil central, atravessando perigosamente pinguelas sobre rios e ribanceiras. As viagens duraram, para muitos, mais de 30 horas. De São Paulo, cinco ônibus da região do ABC, trouxeram uma maioria de jovens. Os que vieram da Itália, Espanha, Áustria, Alemanha, Argentina, México, Guatemala, Colômbia, Paraguai também enfretaram os ônibus no Brasil. Um dos grupos de espanhóis era formado de 32 católicos de comunidades de base, do Movimento Oscar Romero (bispo assassinado em El Salvador em 1980) e do Movimento ?Somos Igreja?. Na Europa, as igrejas cristãs envelhecem e os jovens, com diferentes aspirações espirituais, não se sentem atraídos a pertencer à pesada estrutura clerical. O movimento ecumênico cresce, porém com muitos dilemas. Diante da saúde enfraquecida do Papa João Paulo, muitos católicos estão pedindo um novo Concílio. Movimentos desejam mudanças radicais, como o reconhecimento dos padres casados, o sacerdócio feminino e a eleição direta dos bispos. Um dos espanhóis presentes à Romaria, Alberto Dávila, de uma comunidade de base de Madrid, disse que o seu grupo elegeu Dom Pedro Casaldáliga como seu bispo. ?Tenho muito mais afinidades religiosas, espirituais, sociais com Dom Pedro do que com o nosso Bispo de Madrid, muito vaticanista?, justificou-se, enquanto comia uma coxinha com as mãos, em prato descartável, sob o sol quente do meio-dia.Os europeus estavam felizes com tudo o que viram e ouviram, apesar de toda falta de conforto. Eles vislumbram nas organizações religiosas populares da América Latina o futuro possível para a realização da missão profética da Igreja: a construção do Reino ( de Paz, fraternidade e justiça). O que justifica o slogan da Romaria 2001: ?Vidas pelo Reino?.Mais de 50 sacerdotes de diferentes congregações e dioceses só se distinguiram dos demais romeiros no momento da celebração litúrgica. No galpão, atrás do Santuário, eles vestiram os paramentos vermelhos ? a cor do martírio muito antes de ser a cor dos partidos revolucionários. Ponto alto da Romaria, a Celebração Eucarística do domingo durou três horas de muitos cantos e vibração apesar do sol forte. Estandartes com fotos dos mártires, faixas das caravanas, fitas e lenços balançavam sobre as cabeças. Nas orações dos fiéis foram incluídos os que morreram nos grandes massacres (Carandiru, Candelária, Carajás), os que continuam vivos na luta ou no sofrimento da exclusão, e também os assassinos e torturadores. O poeta Pedro Tierra recitou poema feito por ele quando, no Carandiru com mais outros 40 presos políticos, recebeu a notícia da morte do Padre Penido Burnier e entregou a Dom Pedro uma margarida prateada, com o caule de arame farpado, artesanato feito pela irmã de Alexandre Vannucchi, universitário de 22 anos, torturado até a morte, em 1973. Tierra lembrou um verso do bispo que dizia: ?Malditas as cercas de arame farpado?. A benção final foi dada pela mãe do Padre Josimo, assassinado na sede da Comissão Pastoral da Terra, no Bico do Papagaio, em 1986. Na despedida, Dom Pedro reforçou a idéia sempre lembrada: a memória do passado representa um compromisso no presente. E depois de perguntar aos fiéis por três vezes: ?Vocês acreditam nos pobres??, Dom Pedro pediu então que assumissem três compromissos:1. Manter viva, atualizada e subversiva a memória dos mártires;2. Participar das comunidades de base e dos movimentos populares;3. Voltar às suas comunidades, lares e países contagiando a todos com esses compromissos assumidos.

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