Dom Cláudio Hummes vence desafios e vive fase de prestígio

Ao assumir a Arquidiocese de São Paulo, em 1998, o maior desafio do franciscano Cláudio Hummes era intangível: a sombra de seu antecessor, o cardeal Paulo Evaristo Arns. Após 27 anos de poder, d. Paulo havia deixado para trás uma estrutura marcada pela sua forte personalidade e com um exército de padres fiéis ao seu estilo. Temia-se que, ao mexer nessa estrutura, d. Cláudio desencadeasse uma crise. O receio era tanto que ele passou o primeiro ano aparentemente imóvel, feito um enxadrista, estudando o próximo movimento. Mas tudo isso mudou. Passados quase quatro anos, o cardeal Hummes impôs o seu ritmo de administração e atravessa uma fase de crescente prestígio - não só em São Paulo como também em Roma. Os indicadores dessa nova fase são visíveis. Após o afastamento, para outras dioceses, dos bispos remanescentes da administração anterior, d. Cláudio acaba de dar posse ao conjunto de seis bispos-auxiliares que irão auxiliá-lo em sua missão. Conseguiu influenciar na escolha de todos, dando preferência aos mais preparados intelectualmente, sem privilegiar progressistas ou conservadores. A montagem da equipe também foi facilitada pela recente renúncia do coordenador-geral da pastoral, monsenhor Sérgio Conrado, que há 21 anos estava no cargo, um dos mais importantes da arquidiocese. D. Cláudio ficou livre para indicar um um padre mais afinado com suas idéias. Ele decidiu manter o esquema administrativo montado pelo antecessor, que dividiu a área eclesiástica em seis regiões pastorais, mas com uma diferença substancial: a administração dos recursos financeiros ficará centralizada na cúria. Em setembro, o cardeal deve devolver à cidade a Catedral da Sé, símbolo mais visível do catolicismo na capital e que estava ameaçada de ruir. Era preciso, além de reformar, terminar a obra. O trabalho está sendo feito com doações de empresas, pela Lei Rouanet, num total de R$ 16,7 milhões. Ainda neste ano, o cardeal espera concluir o Seminário da Caridade - estudo realizado com o apoio de quatro universidades, sobre a realidade social da cidade e a presença da Igreja. Ajudará a definir o trabalho dos próximos anos. Em Roma, um dos sinais do prestígio do cardeal-arcebispo de São Paulo é o fato de integrar uma congregação e seis conselhos pontifícios, organismos encarregados de ajudar o papa a governar a Igreja. Além disso, em fevereiro, no início da Quaresma, ele esteve em Roma para pregar durante o retiro espiritual anual do papa e de seus assessores. Foram 22 palestras, todas em italiano. D. Cláudio recebeu o convite para o retiro em outubro do ano passado, após ter se destacado durante o 10.º Sínodo dos Bispos com uma exposição sobre o diálogo religioso e a paz. A presença de d. Cláudio no retiro melhorou a sua cotação nas listas de papabiles. Segundo vaticanistas, o sucessor de João Paulo II será provavelmente escolhido num país do Terceiro Mundo e terá que falar várias línguas - qualidades que d. Claudio possui. Colaboração - Em São Paulo, o cardeal não criou atritos com seu antecessor, que exibia no poder uma conduta ideológica mais marcante que a sua. Em vez disso, buscou a cooperação do arcebispo aposentado e sempre que pode o elogia publicamente. Na opinião de d. Jayme Chemello, presidente da Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB), seu colega está conseguindo realizar a díficil tarefa que recebeu com "inteligência e cabeça fria". Para d. Fernando Figueiredo, bispo de Santo Amaro e presidente da Regional Sul 1 da CNBB, o cardeal Hummes está no caminho certo: "Busca uma face própria para a Igreja de São Paulo, sem se afastar da Santa Sé." Estes avanços não significam, é claro, ausência de problemas. Um dos mais preocupantes no momento é a ausência de vocações sacerdotais em São Paulo.

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