Doleiro suspeito seria dono de empresa uruguaia

Surpark, que fica em paraíso fiscal, fez parte, diz juiz, de esquema de remessa ilegal

Marcelo Auler, O Estadao de S.Paulo

04 de abril de 2009 | 00h00

As ligações de Jadair Fernandes de Almeida, preso pela Polícia Federal na Operação Castelo de Areia como um dos doleiros encarregados da lavagem de dinheiro, com a empresa Surpark, constituída em Montevidéu, no Uruguai, são tão fortes que o engenheiro Paulo Eurico de Melo Tavares, seu ex-sócio em outra firma, o aponta como verdadeiro dono da firma uruguaia. A Surpark, que fica em paraíso fiscal, fez parte, segundo o juiz Fausto De Sanctis, do suposto esquema montado pela construtora Camargo Corrêa para a remessa ilegal de dólares ao exterior.Almeida é dono da Ecospar Serviços e Participações Ltda.. Em 1998, ele e sua empresa tornaram-se sócios do engenheiro Tavares na Geomática Tecnologias de Informação Ltda., com sede em Petrópolis (RJ). Em 2005, sem explicar os motivos ao sócio, Almeida repassou as 857.400 cotas da Geomática que estavam em seu nome e no da Ecospar para a Surpark, com sede na Plaza Independência, em Montevidéu. Tavares, hoje único dono da Geomática, ao explicar por que não estranhou a transferência das cotas para a empresa uruguaia, deixou escapar que Almeida é seu dono. "É natural que ele tenha passado as cotas para uma empresa dele", explicou. Questionado, admitiu jamais ter ouvido o próprio apresentar-se como dono da Surpark, mas confessa que sempre o tratou como tal.Documentos da Junta Comercial do Rio mostram que no mesmo ato em que a Surpark adquiriu por R$ 368.682 as cotas da Geomática, a empresa, então representada por Jorge Luiz Porto Motta, nomeou Almeida seu representante legal. Ou seja, ele deixou de ser sócio, mas continuou com direito a voto. Segundo Tavares, em todo esse tempo ele nunca conversou com nenhum outro representante da Surpark, apenas com Almeida. Ao decretar a prisão dos dez acusados da Operação Castelo de Areia, o juiz De Sanctis explicou que a PF grampeou um fax que a Ecospar enviou para a Camargo Corrêa com detalhes da remessa de 750 mil - provavelmente dólares - feita pela Surpark para a empresa Maynard Services, nas Ilhas Cayman. O juiz narra a identificação pela polícia do Instituto Pirâmides, da empresa Altercom e da própria Ecospar Serviços e Participações como possíveis "empresas de fachada", usadas para a remessa de valores da Camargo Corrêa ao exterior.O Instituto Pirâmides também foi fundado por Almeida, que foi seu presidente. A criação foi em janeiro de 2005, como registrado no Cartório de Pessoa Jurídica do Rio. Depois, aparece sua mudança para a Rua Alfredo Menezes, 200, no distrito de Bacaxá, em Saquarema, na Região dos Lagos. Nesse endereço em Bacaxá funcionam um colégio, um escritório de contabilidade e outro de advocacia. Ninguém ouviu falar do Pirâmides.O advogado Celso Paulo, até hoje diretor de projetos do instituto, diz que tudo não passou de "uma tentativa de criação de uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público que não deu certo". A ideia de Almeida era, com o Pirâmides, "ajudar prefeituras e órgãos públicos, o que jamais foi feito".O próprio diretor admitiu que o instituto nunca esteve em Bacaxá, endereço do qual constava apenas para se beneficiar das isenções fiscais do município. Na prática, ele sempre funcionou com a Ecospar, no edifício Cândido Mendes, no centro do Rio. Ali as pessoas atendiam o telefone anunciando o instituto, motivo pelo qual, na versão de Celso Paulo, o Pirâmides acabou envolvido na Operação Castelo de Areia. "Se houve alguma atitude ilegal foi sem o nosso conhecimento. Desconhecemos até que tenha havido a abertura de alguma conta bancária. Para nós, foi tudo uma grande confusão", desabafou o diretor de projetos.Procurado por meio de seu advogado, o criminalista Arthur Lavigne, Almeida não deu importância à descoberta de suas ligações com a Surpark e a Geomática. Segundo Lavigne, ele desconhecia "a versão do juiz" de que a Surpark foi usada para remessa ilegal. Ontem, depois de ouvir Tavares considerar Almeida dono da empresa uruguaia, o Estado tentou falar de novo com Lavigne, sem sucesso.

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