Doleiro pagou R$ 1 mi a deputado, afirma ex-contadora em depoimento na Câmara

Convocada ao Conselho de Ética na Câmara, Meire Poza define Youssef como 'uma espécie de banco' que servia aos parlamentares

Fábio Brandt, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2014 | 02h05

BRASÍLIA - A ex-contadora de Alberto Youssef, Meire Bonfim da Silva Poza, afirmou ontem ter intermediado o pagamento de pelo menos R$ 1 milhão ao deputado Luiz Argôlo (SDD-BA) e referiu-se ao doleiro como uma espécie de "banco" para parlamentares: "Ele emprestava, dava dinheiro e presentes". Meire Poza deu a declaração na condição de testemunha do processo aberto contra Argôlo no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados.

No depoimento, Meire também detalhou aspectos da relação de seu ex-chefe com os deputados André Vargas (sem partido-PR) e Cândido Vaccarezza (PT-SP). Entre as informações que passou ao conselho, ela citou uma conversa na qual Youssef lhe disse ter sido hospedado por Vargas em Brasília. Quanto a Vaccarezza, disse que o petista a procurava por meio de um assessor. Mas a contadora não falou de valores ou negócios associados a esses deputados. "Hoje, eu queria me limitar ao Argôlo", disse.

Meire disse que estava em condições de poder afirmar que Luiz Argôlo recebeu dinheiro do doleiro porque ela era a encarregada de separar os valores. A certa altura, ela relatou um episódio em que o político foi a São Paulo para buscar dinheiro. "Ele ia embora naquele mesmo dia. E não pôde ir embora porque o dinheiro não chegou. E ficou em São Paulo mais um dia para pegar no dia seguinte".

Defesa. O advogado Aluísio Corrêa Régis, que defende Argôlo, estava presente à sessão do conselho. Ele pediu que Meire dissesse se viu alguém fazer a entrega do dinheiro. Ela respondeu que não. Após a reunião, Régis comentou com a imprensa e alguns deputados que o depoimento tinha tornado evidente a ausência de provas para algumas afirmações da contadora.

No depoimento, Meire Poza disse também ter feito transferências, a pedido de Youssef, a pessoas ligadas a Argôlo. Uma delas foi no valor de R$ 60 mil para Manoelito Argôlo. A outra foi de R$ R$ 47 mil para Élia da Hora, que já chegou a ser nomeada para trabalhar com o deputado na Bahia. O advogado Corrêa Régis sustentou que esses pagamentos se referem à compra de um terreno. Sem dizer qual o verdadeiro motivo da transferência, a contadora negou que os pagamentos fossem decorrentes de uma transação legal.

Mais adiante, a ex-contadora revelou ao Conselho de Ética da Câmara que emitiu notas para o doleiro e para Argôlo com a empresa Grande Moinho Cearense, de Fortaleza, pertencente ao grupo de Carlos Jereissati - empresário que é irmão do candidato ao Senado pelo PSDB no Ceará, o ex-governador Tasso Jereissati.

O depoimento teve, também, uma referência indireta ao ex-deputado e ex-ministro das Cidades Mário Negromonte (PP-BA). Meire caracterizou Adarico Negromonte, irmão do ex-ministro, como uma espécie de office boy de Alberto Youssef. Segundo ela, Adarico fazia diversos tipos de entregas, inclusive de dinheiro, a pedido do doleiro. Além disso, o intermediário também atuava como motorista e fazia pequenos serviços, colmo buscar pessoas no aeroporto.

Sala vazia. Poucos parlamentares estavam presentes à sessão do Conselho de Ética que tratou do caso.

Além do presidente da sessão, Júlio Delgado (PSB-MG), e do relator do caso, Marcos Rogério (PDT-RO), apenas cinco deputados compareceram. Eles perguntaram a Meire, mais de uma vez, o porquê de ter decidido falar em público o que sabe sobre o grupo de Youssef. Meire Poza afirmou ter visto coisas que a deixaram "estarrecida".

Disse ainda que foi malsucedida em uma tentativa que fez de romper suas relações profissionais com o doleiro. Apesar disso, Meire disse não acreditar que corra nenhum tipo de risco físico - em seu entender, a questão deve ser resolvida na Justiça e não com ameaças ou ataques. A contadora procurou deixar claro, também, que não foi denunciada nem responde a nenhum processo relacionado com os episódios que envolvem Alberto Youssef.

Apesar de ter focado seu depoimento em Luiz Argôlo, Meire disse que voltará ao Congresso para falar sobre outros políticos e que repassará à CPI alguns documentos que já entregou à Polícia Federal. O deputado Marcos Rogério disse que ontem mesmo Meire já lhe repassou comprovantes do pagamento de R$ 115 mil feito por Youssef para o fretamento de um jatinho emprestado a André Vargas. / COLABORARAM: RICARDO DELLA COLETTA E DAIENE CARDOSO

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