Dois partidos em reconstrução

Dois partidos em reconstrução

Campanha polarizada e agressiva faz PT resgatar discurso ideológico e PSDB unir seus quadros

O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2014 | 23h24

Campanha polarizada e agressiva faz PT resgatar discurso ideológico e PSDB unir seus quadros; legendas têm agora pela frente desafio de romper o ciclo crescente de rejeição ao sistema partidário.

PT RECONHECE QUE PRECISA DAS CHACOALHADA

Seja qual for o resultado das urnas neste domingo, o PT passará por um profundo processo de reformulação depois das eleições. Demanda das correntes minoritárias há anos, a reforma da estrutura e dos métodos partidários agora tem um patrono de peso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segunda-feira passada, no caminho entre Itaquera e o Tuca, em Perdizes, Lula foi indagado se pretendia tirar férias depois da eleição. “Não. Quero aproveitar enquanto a Dilma estiver montando o novo governo para me dedicar ao PT”, respondeu, otimista. Um mês antes, Lula já havia conversado com o presidente nacional do partido, Rui Falcão, sobre a necessidade de dar uma “chacoalhada” no PT.

O principal objetivo do ex-presidente é abrir as estruturas partidárias para a aproximação da juventude, especialmente as novas formas de organização política que protagonizaram os protestos de junho de 2013, a intelectualidade e os movimentos sociais que deram as bases para a fundação do partido e acabaram repelidos pela disputa interna.

Além da disposição de Lula, a força da militância espontânea pela reeleição de Dilma no 2.º turno serviu para reforçar a necessidade de rever práticas partidárias cristalizadas desde que o PT se tornou potência eleitoral. “Estamos recebendo um sopro da chamada opinião pública petista”, disse Joaquim Soriano, da Fundação Perseu Abramo.

A renovação, no entanto, esbarra na estrutura partidária marcada pela eterna disputa entre as forças internas que ocupam todos os espaços. Isso afasta a juventude organizada em redes e coletivos, intelectuais e movimentos sociais. “O PT se afastou dos movimentos e foi atuar como partido tradicional, com alianças parlamentares cujo objetivo é tempo na TV”, disse Raimundo Bonfim, petista e coordenador da Central de Movimentos Populares.

Ninguém tem uma fórmula para a reforma do PT, mas a necessidade de mudança é quase unanimidade no partido. Uma das propostas em pauta é o fim do Processo de Eleições Diretas (PED), que, para alguns, reduziu o papel das correntes minoritárias e está contaminado por práticas contestáveis. “Virou um processo que, em alguns aspectos, tem os defeitos que criticamos nas eleições”, alegou o secretário de Movimentos Sociais, Bruno Elias.

Ética. No Encontro Nacional do ano passado, o partido aprovou cláusula que limita a três o número de mandatos dos parlamentares petistas a partir da atual legislatura. Muita gente não levou a sério, mas Falcão já avisou que a norma será cumprida. O objetivo é quebrar os projetos pessoais dentro do PT.

O maior dos problemas a ser enfrentado, porém, é a deterioração ética do PT. O partido avalia que a prisão dos condenados no mensalão, os escândalos de corrupção, os casos André Vargas e Luiz Moura, forjaram o sentimento antipetista que se manifestou na corrida eleitoral. Para isso, o PT aposta na reforma política com o fim do financiamento privado de campanhas. “A questão da ética está ligada à presença do dinheiro. Temos que tirar o dinheiro da atividade política por inteiro”, defende Soriano. (Ricardo Galhardo)

DISPUTA ALINHOU PAULISTAS E MINEIROS DENTRO DO PSDB

Na noite da quinta-feira passada, o núcleo duro do PSDB paulista se reuniu no Palácio dos Bandeirantes. Além do governador reeleito Geraldo Alckmin, do coordenador de sua campanha, Edson Aparecido, e do presidente da legenda no Estado, Duarte Nogueira, estavam também presentes o senador eleito José Serra e seu suplente, José Aníbal. Esse grupo de tucanos, que até pouco tempo vivia em clima de guerra interna, saiu de lá disposto a realizar uma caminhada de encerramento de campanha no centro de São Paulo, que de fato veio a ocorrer ontem - mesmo sem a presença de Aécio Neves. Cerca de mil pessoas apareceram.

Independentemente do resultado da eleição de hoje, o PSDB já celebra um feito considerado “histórico” por tucanos de todos os escalões. Graças ao acirramento da polarização entre “azuis” e “vermelhos”, pela primeira vez desde sua fundação em 25 de junho de 1988, o partido engajou efetivamente eleitores e todos os seus caciques na campanha, especialmente os de São Paulo e Minas.

Grupos historicamente divergentes, tucanos mineiros e paulistas chegaram alinhados à reta final da disputa pelo Planalto. A única crise que ameaçou abalar a relação das duas alas ocorreu no início da pré-campanha, quando Aécio e Serra ensaiaram disputar internamente a vaga de candidato da sigla à Presidência. Depois disso, paulistas e mineiros uniram forças em torno da campanha de Aécio.

Quadros do diretório mineiro do PSDB, como o deputado federal Marcus Pestana, presidente da sigla em Minas Gerais, se mudaram para a capital paulista no 2.º turno. O dirigente atuou diretamente com o núcleo paulista, comandado pelo ex-governador Alberto Goldman.

A principal liderança política do comitê central, porém, foi o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), candidato a vice de Aécio. Muito ligado ao senador eleito José Serra, que já foi desafeto de Aécio, Aloysio passou a maior parte dos 20 dias do 2.º turno viajando pelo interior do Estado e organizando os prefeitos em favor de sua chapa, assim como o próprio Serra.

Já Alckmin surpreendeu até seus aliados ao manter na campanha presidencial quase o mesmo ritmo e engajamento que apresentou na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes.

A imagem e o papel do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também foram reforçados. Pela primeira vez desde que deixou o poder, ele foi ao mesmo tempo símbolo e operador político, tendo protagonizado embates diretos com Luiz Inácio Lula da Silva.

Pós-eleição. A partir de amanhã, essa unidade será posta à prova. Se Aécio vencer, terá de deixar o comando partidário. Os tucanos paulistas e mineiros ainda não se acertaram sobre isso. O desafio do partido é não rachar de novo na definição da próxima direção. No Congresso, o PSDB saiu fortalecido. Além de eleger mais deputados, os tucanos contarão com uma “tropa de elite” no Senado, formada por José Serra, Tasso Jereissati, Álvaro Dias, pelo novato Antonio Anastasia e, em caso de derrota hoje, pela dupla Aécio e Aloysio. (Pedro Venceslau e Ricardo Chapola)

ANÁLISE - PROTESTOS DE JUNHO: DE PROTAGONISTAS A FIGURANTES

“Protestos se espalham e políticos viram alvo”; “‘Contra tudo’ e por mudanças milhares vão às ruas”; “Um País que se mexe: o Brasil nas ruas”; “A nova cara do Brasil”. Em 18 de junho de 2013, os jornais estampavam nas manchetes as manifestações que, na véspera, tomaram as ruas.

Deflagrados como movimento contra o aumento da tarifa de ônibus, os protestos passaram a aglutinar demandas distintas. As pessoas reclamavam não só da qualidade dos serviços públicos, mas da corrupção, dos partidos e “de tudo de ruim que está aí”.

O ponto comum daquele encontro multifacetado era a insatisfação, um tal “sentimento difuso” que logo encontrou um alvo preferencial: a política institucional. Símbolos do poder foram atacados. Os governantes viram sua popularidade derreter da noite para o dia. Na tentativa de explicar o que se via nas ruas, falou-se em “crise de representatividade”, “fim dos partidos” e “negação da política”.

Os políticos passaram a temer o poder da guilhotina nas urnas. Revezando-se no Planalto desde 1994, petistas e tucanos sabiam que, se a Bastilha caísse, seriam os primeiros a perder as cabeças. Para salvá-los, marqueteiros tiraram das cartolas propostas que falavam em mudança, como plebiscitos, novos programas sociais e pacotes de boas intenções.

Os ecos dos protestos de 2013 bateram à porta da eleição de 2014, catalisados por uma economia que patinava: oito em cada dez eleitores continuavam a clamar pelas mudanças. A ex-ministra Marina Silva (PSB), que em 2010 apresentou-se como alternativa à polarização PT-PSDB, era quem melhor vestia o figurino, depois que foi alçada candidata com a morte de Eduardo Campos. 

Sua retórica da nova política reverberava no eleitor que foi às ruas. Marina arrancou votos de Dilma Rousseff e de Aécio Neves e levou indecisos que não viam nem PT nem PSDB como opções. Mas a nova política não resistiu a um mês de escrutínio. Marina foi triturada pela velha política, com a ajuda da inconsistência de seu discurso, da volatilidade de suas propostas e da incoerência de suas alianças. PT e PSDB fizeram das suas fragilidades uma avenida. Com campanhas milionárias, marqueteiros gabaritados, militância organizada, estrutura de governos País afora, enfim, todos mecanismos mais convencionais da política, desconstruíram a candidata que tentava representar os desejos de junho de 2013.

Dilma e Aécio convenceram o eleitor de que, para mudar, era melhor abandonar o flerte com o desconhecido. Com Marina fora de campo, PT e PSDB asseguraram o confronto de sempre, sem sequer apresentar algo novo ao eleitor. O debate no 2.º turno foi mais do mesmo: ataques, comparações, distorções, mais ataques, paternidade de programas sociais, corrupção, ataques de novo. De junho de 2013, não sobrou quase nada. Talvez, apenas, a barba por fazer dos jovens atores que apresentavam a propaganda eleitoral, tentativa de dar nova roupagem às mesmas ideias.

A eleição de hoje é o triunfo da polarização PT-PSDB, que ameaçava se esgarçar um ano e quatro meses atrás. Dilma e Aécio chegaram à final eleitoral com o mesmo embate ideológico e modus operandi dos últimos 20 anos. Os protestos de junho de 2013 ameaçaram ser protagonistas da eleição de 2014, passaram a coadjuvantes e terminaram como figurantes - com a barba por fazer. (Julia Duailibi)

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