Reprodução/Twitter
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Dois jornalistas são agredidos durante manifestações pró-Bolsonaro; entidades reagem

Agressões ocorreram em Belo Horizonte e Salvador; manifestantes tentaram impedir registro dos atos a favor do presidente

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2021 | 11h46
Atualizado 16 de março de 2021 | 13h10

SÃO PAULO e BELO HORIZONTE – Dois jornalistas foram agredidos nesta segunda-feira, 15, enquanto trabalhavam na cobertura de manifestações a favor do presidente Jair Bolsonaro. As agressões ocorreram em Belo Horizonte e Salvador, e foram motivo de repúdio de entidades representativas. 

Nos dois casos, manifestantes bolsonaristas tentaram impedir que os profissionais filmassem e fotografassem os atos. Em Belo Horizonte, um repórter fotográfico do jornal Estado de Minas foi alvo de pontapés, empurrões e xingamentos após se identificar como profissional de imprensa.

Um dos agressores o atingiu com um capacete. O protesto “culminou em censura ao trabalho da imprensa”, registrou o Estado de Minas. O jornal optou por não divulgar o nome do profissional, por motivos de segurança. 

O agressor utilizou o capacete foi identificado como o economista Paulo Cesar Bretas, de 68 anos. Os outros conseguiram fugir durante a chegada da polícia. A corporação foi acionada pelo próprio repórter. O agressor foi levado para a Central de Flagrantes (Ceflan) da Polícia Civil de Minas Gerais e assinou um termo em que se compromete a comparecer à audiência no Juizado Especial Criminal. 

“A Polícia Civil de Minas Gerais informa que a ocorrência foi recebida na Delegacia Adida ao Juizado Especial de Belo Horizonte, onde o suspeito, de 68 anos, de agredir o fotógrafo assinou Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) por vias de fato, Ele assumiu o compromisso de comparecer a audiência no Juizado Especial Criminal”, diz nota enviada pela polícia civil.

O vídeo mostra duas senhoras exaltadas reclamando da presença do fotógrafo, que se identifica como profissional do Estado de Minas. Uma chama o profissional de “comunista”. 

“Um dos agressores que me chutaram disse, enquanto me atacava, ‘eu sou brasileiro’”, conta o fotógrafo. “Mesmo depois da chegada da polícia, várias pessoas ainda tentaram me intimidar, diziam que iam me encontrar. Um dos policiais percebeu e colocou um colega ao meu lado, enquanto tentavam localizar os agressores". 

Bahia

Em Salvador, a fotojornalista Paula Fróes, do jornal Correio, foi cercada por manifestantes enquanto trabalhava na cobertura de um protesto bolsonarista no bairro da Mouraria, na região central da capital baiana. Os manifestantes, enquanto cercavam a jornalista, a chamaram de “vagabunda” e “palhaça”, entre outras ofensas. Alguns deles não usavam máscaras de proteção, em desrespeito às recomendações de autoridades de saúde para o combate à pandemia de coronavírus

A Associação Nacional de Jornais (ANJ) emitiu notas em que condena as duas agressões. No caso de Minas, a entidade pediu que as autoridades identifiquem os agressores e os encaminhem à Justiça. Em Salvador, ao menos um dos agressores já foi identificado. 

“Os agressores atentaram contra a integridade física de um cidadão e também contra o direito de todos serem livremente informados, já que o repórter-fotográfico estava trabalhando para levar a público informações sobre a manifestação”, disse a ANJ em nota. “A sociedade e suas instituições devem reagir com eficiência e rigor em defesa da atividade jornalística e da liberdade de imprensa, que são fundamentais para o exercício da cidadania.” 

A Associação Bahiana de Imprensa (ABI) divulgou nota de repúdio ao caso em Salvador. A entidade classificou o episódio como “mais uma cena abjeta destes tempos sombrios, em que o ativismo político é rebaixado a isso, com o estímulo da principal autoridade do País”: “A ABI se solidariza com a colega e com a redação do Correio, e apoia as medidas jurídicas que profissional e empresa julgarem necessárias”.

O Sindicato dos Jornalista da Bahia também se manifestou. “O que aconteceu com a jornalista Paula Fróes nesse domingo, dia 14 de março, na Mouraria, em Salvador,  é apenas a continuidade da escalada de agressões contra a imprensa. O Sinjorba solidariza-se com a colega e manifesta seu veemente repúdio”. 

O presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, Agostinho Patrus (PV), condenou os ataques que ocorreram em Belo Horizonte. “A liberdade de imprensa é um direito inviolável à democracia e toda agressão ao seu livre exercício deve ser coibida e condenada”, escreveu o deputado em sua conta oficial no Twitter. 

A presidenta do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, Alessandra Mello, afirmou que a profissão é fundamental para a democracia e precisa ser respeitada. “Antes as agressões, a maioria delas, eram verbais. Hoje são para vias de fato”, disse. “O jornalismo é uma profissão fundamental para democracia e uma atividade essencial durante a pandemia. Informação é um direito do cidadão”.

Segundo a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), o ano de 2020 foi o mais violento para os jornalistas brasileiros. Os ataques à imprensa e as agressões diretas a jornalistas tiveram um aumento de mais de 100%, de acordo com levantamento da entidade. / TULIO KRUSE e LEONARDO AUGUSTO, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

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