Dois depoimentos podem definir primeiro júri de Carajás

Os depoimentos do legista Fortunato Badan Palhares e do foneticista Ricardo Molina, hoje, serão decisivos para determinar o resultado do julgamento dos primeiros militares que participaram do confronto ocorrido em abril de 1996 em Eldorado do Carajás, que resultou na morte de 19 sem-terra. Os dois técnicos apresentaram depoimentos diferentes, mas todos baseados em laudos técnicos. O primeiro júri, do coronel Mário Colares Pantoja e do capitão Raimundo Almendra Lameira, deve terminar na madrugada de amanhã. O major José Maria Pereira Oliveira e outros 146 PMs serão julgados nas próximas duas semanas. O primeiro depoimento foi de Molina, que reproduziu cenas do confronto, onde garante que um policial militar foi o responsável pelo primeiro tiro, que teria gerado todo o incidente. Além disso, o foneticista, ampliou imagens gravadas pelo cinegrafista Raimundo Osvaldo Araújo - as únicas existentes sobre o fato - para mostrar que, antes mesmo dos sem-terra atacarem os PMs, havia uma pessoa ferida, supostamente por tiros. "Em um primeiro momento houve disparos de armas automáticas e bombas. Depois houve nova seqüência de tiros e vemos, em seguida, um homem caído", relatou Molina. Durante o depoimento do foneticista, que é coordenador do Laboratório de Fonética da Universidade de Campinas (Unicamp) em São Paulo, um dos advogados de defesa, Roberto Lauria, tentou tumultuar o depoimento, provocando um bate-boca com o assistente do promotor Marco Aurélio do Nascimento, Marcelo Freitas. Lauria inclusive foi ameaçado de ser retirado do júri. Molina, além das cenas ampliadas, mostrou vozes de sem-terra afirmando que haviam mortos, citando inclusive o nome de Amâncio Rodrigues, que estava entre os 19 corpos encontrados depois do confronto. O outro advogado dos acusados, Américo Leal, também contestou o depoimento de Molina, alegando que as imagens semelhantes aos tiros disparados pela PM na verdade eram reflexos dos escudos dos militares. Porém, no dia anterior, o coronel Mário Pantoja afirmou que os escudos eram de madeira e hoje, Badan Palhares confirmou o tiro, mas afirmou que ele fora dado para cima e não em direção aos sem-terra. "É um delírio dos advogados, que assumiram o papel do perito. O tiro foi identificado pela fumaça e o ruído do estampido", afirmou Molina. Badan Palhares, que produziu um laudo e um parecer sobre o confronto, afirmou que é impossível saber quem fez o primeiro disparo, contestando a análise de Molina. "Não tenho condições técnicas para dizer nada sobre isso", afirmou o legista, ressaltando que no incidente é impossível se falar em massacre. "As pessoas foram marcadas para morrer", observou Palhares, explicando que, da forma como ocorreu o embate, centenas de pessoas poderiam ser mortas, mas apenas 19 homens foram atingidos, inclusive por armas brancas e nenhuma mulher ou criança. Para o legista, também não houve execuções. "Não há indícios para que isso pudesse ter acontecido." Mas os depoimentos da terça-feira à noite favoreceram à acusação. O cinegrafisca Osvaldo Araújo, que esteve no local no momento do confronto, praticamente confirmou as versões constatadas hoje na exposição de Molina. "Nós vimos a polícia atirando contra os sem-terra, mas não vimos os trabalhadores atingindo a PM", afirmou Araújo, afirmando que outra tropa também foi usada como forma de encurralar os integrantes do Movimento dos trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) que estavam bloqueando a rodovia PA-150, motivo pelo qual ocorreu o conflito. "A PM de Parauabepas também chegou atirando." Este fato também chamou a atenção da promotoria, que lembrou que os policiais desta cidade, por serem também pelotão florestal, usam armas brancas. No final da tarde de hoje começaram os debates entre a acusação e defesa, onde a tese defendida pelos dois lados foi justamente os laudos apresentados por Molina e Badan Palhares. Um dos advogados dos acusados, Gilberto Alves, preferiu discursar sobre as atividades do MST, inclusive acusando o movimento de fazer uso da terra para plantar maconha. Esta mesma alegação foi o ponto principal do primeiro julgamento, realizado em 1999. O julgamento, até agora o maior do País, só será encerrado no próximo mês. Na terça-feira, o major José Maria Pereira Oliveira, comandante do Batalhão da PM em Parauabepas no época do conflito, sentará no banco dos réus. Ele se negou a ser julgado com o coronel Pantoja, de quem tornou-se inimigo após o confronto de Eldorado do Carajás. Oliveira poderá esclarecer como foram as ordens tramsitidas para suas tropas e quem usou as armas brancas. Depois de Oliveira, o júri acontece nos dias 27 de maio e 10 de junho.

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