Documentos do MST mostram: objetivo é derrotar o capitalismo

Documentos internos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) mostram que o futuro do movimento tende a uma posição mais radical. Quatro eixos a definem: enfrentar e derrotar diretamente o Estado e o modelo econômico; deixar de ser apenas sem-terra para tornar-se "lutador do povo"; ocupar novos espaços no cenário da luta de classes; fazer a reforma agrária não mais por razões econômicas, mas por razões políticas e ideológicas. Trechos da publicação "Pedagogia do MST: acompanhamento das escolas", de julho de 2001, definem o novo perfil desejado para o militante: "O MST é o grande educador dos sem-terra, e o MST educa os sem-terra inserindo-os no movimento da história. É esse movimento que vem fazendo do trabalhador sem-terra um lutador do povo". "Ser sem-terra hoje é bem mais que ser um trabalhador ou uma trabalhadora que não tem terra ou mesmo que luta por ela. Sem-terra é uma identidade historicamente construída". "O que educa os sem-terra é o próprio movimento da luta, em suas contradições, enfrentamentos, conquistas e derrotas. A pedagogia da luta educa para uma postura diante da vida que é fundamental para a identidade de um lutador do povo. Nada é impossível de mudar e quanto mais inconformada com o atual estado de coisas mais humana é a pessoa". Inimigos O documento "Levante-se, vamos à luta!", de julho de 2000, define os "principais inimigos" que o MST precisa "enfrentar e derrotar". São eles: o modelo econômico "imposto ao país", os latifundiários e grandes proprietários de terra, o complexo agroindustrial multinacional, o governo Fernando Henrique Cardoso e o modelo tecnólogico. "Nessa luta temos inimigos poderosos que estão tentando nos derrotar e nos destruir há muito tempo. Entre nós e eles há uma verdadeira luta de classes permanente. Eles têm o projeto deles para a agricultura e para o país. E nós temos o nosso. Então, agora, é projeto contra projeto", diz um trecho do documento. O Caderno de Formação número 31 - "O Movimento Camponês no Brasil e a Luta pela Reforma Agrária", de janeiro de 1999 - apresenta quatro textos para o debate: um do sociólogo José de Souza Martins, outro do economista e integrante da direção nacional João Pedro Stédile, outro sobre os "Desafios Gerais do Movimento Camponês Latinoamericano", e mais um do ex-dirigente e agora apenas militante do MST baiano Ademar Bogo, escritor, poeta e autor da letra do Hino do MST. Avanço O artigo de Bogo é o que mais avança em relação às propostas para o futuro. Chama-se "Lições históricas das lutas e dos movimentos pela reforma agrária". Defende o seguinte: "organizar trabalhadores excluídos apenas para ocupar a terra para trabalhar é uma relação já superada que não se sustentará". Bogo "comprova" a superação dessa fase da luta com duas razões. Primeira: "a ´facilidade´ de ocupar latifúndios, tendo em vista a queda do preço da terra (...) Hoje qualquer liderança um pouco esclarecida consegue liderar ocupações por todo o país". Segunda: "A disputa fundamental hoje não se dá entre os sem-terra e os fazendeiros, mas sim entre os sem-terra e o Estado, pois na década de 90 inauguramos uma nova fase na luta de classes, que se caracteriza pela disputa de projetos políticos". Facilidade Esses e centenas de outros documentos internos do MST, até há pouco de difícil acesso, podem ser encontrados hoje, por qualquer interessado, no Centro de Documentação e Memória (Cedem), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), na Praça da Sé, 108. Estão lá, desde o final do ano passado, ainda à espera de catalogação final, trinta caixas de papelão, parte doadas pelo próprio MST, parte por estudiosos e pesquisadores do movimento. Tem de tudo: a coleção do jornal e da revista oficiais, os já relativamente conhecidos livrinhos de capa vermelha sobre a organização interna, cartilhas sobre músicas e jogos infantis, além dos chamados "Cadernos de Formação" - uma série de publicações sobre temas históricos, educacionais, econômicos e sociais. Os chamados livrinhos vermelhos vieram a público, na década de 80, depois de apreendidos em uma ação da Polícia Militar de São Paulo no Pontal do Paranapanema. Foram parcialmente divulgados. São sete: "Sobre o método revolucionário de direção", "Como organizar a massa", "Alianças", "Normas gerais do MST", "Manual de organização dos núcleos" e "Marcha popular pelo Brasil". Estão todos no Cedem - e são uma preciosidade para qualquer pesquisador. Convênio O acervo do MST foi parar no Cedem em conseqüência de convênio assinado em 24 de agosto de 1999, e válido por cinco anos, entre o então reitor das Unesp, Antônio Manoel dos Santos Silva, e a Associação Nacional de Cooperativas Agrícolas (Anca), a pessoa jurídica que representa o MST. Assinou esse convênio, pela Anca, o secretário-executivo da entidade, José Trevisol. O Cedem, presidido pela professora Ana Maria Martinez Correa, também guarda, entre outros, parte do arquivo do Partido Comunista Brasileiro e o famoso Archivio del Movimento Operario Brasiliano. Cuida de organizar toda essa documentação, a historiógrafa Jacy Machado Barletta, especialista em arquivo e documentação. O economista João Pedro Stédile, uma das principais lideranças nacionais do MST, recusou-se a dar entrevista para comentar o conteúdo dos documentos que o Estado compulsou no Cedem.

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