Doação foi para conta do caixa da campanha do governador do ES

O dinheiro de uma doação (cerca de R$ 4,3 milhões), feita pelo governo estadual do Espírito Santo para um suposto projeto ambientalista da Fundação Augusto Ruschi, que havia desaparecido da cooperativa de crédito capixaba, a Coopetefes, foi parar em três contas de Raimundo Benedito de Souza Filho.Amigo pessoal do cunhado do governador, Gentil Ruy, Bené foi responsável pela caixa de campanha de José Ignacio Ferreira. O fato foi revelado nesta quarta-feira pelo contador da cooperativa, Paulo Sergio Torres da Silva, em depoimento ao Ministério Público estadual.Silva se negava a contar ao MP onde o dinheiro, que havia desaparecido dos cofres da cooperativa, tinha sido depositado. Nesta quarta-feira, após ser ameçado de crime de falso testemunho, Silva confirmou o destino da doação.Ele não soube dizer, no entanto, se Bené transferiu o dinheiro para outras contas. Há suspeita de que os R$ 4,3 milhões tenham sido usados para pagar prestações de vários apartamentos e terrenos do governador.Nesta quinta-feira, o MP deve pedir a quebra de sigilo bancário de Bené e de outras nove pessoas para saber o que ele fez com a doação. Ele e o cunhado do governador foram intimados e terão de comparecer para prestar depoimento aos promotores.Os R$ 4,3 milhões são apenas uma parte de um total de R$ 20 milhões recolhidos pelo governo em troca de permissões para troca de crédito de ICMS que seriam, oficialmente, usados em projetos sociais e ambientais.Esses R$ 20 milhões foram recolhidos pelo governo em troca de uma autorização dada pelo governador para que a Samarco Mineração S/A transferisse cerca de R$ 50 milhões de créditos de ICMS para a empresa privada de energia do Espírito Santo, Escelsa.Os R$ 20 milhões seriam divididos entre um projeto social, o ?Luz do Campo?, e o um ambientalista, da Fundação Augusto Ruschi. A operação foi realizada com a aprovação da presidência da Assembléia Legislativa, segundo o MP.O problema é que, no documento assinado por três secretários de governo (entre eles, Gentil Ruy) sobre o acordo da transferência, os R$ 4,3 milhões do projeto ambientalista não são mencionados.Segundo o promotor de Justiça Fábio Vello, isso pode ser um indício de que o governo tentou mascarar o dinheiro que nunca iria parar na fundação. Ainda não está claro, segundo o MP, se houve participação da Augusto Ruschi, mas há ainda mais R$ 590 mil que foram depositados na conta da BBS Informática, de propriedade de um dos membros da fundação, Aloísio Sá Santos. ?Na conta da cooperativa, só sobraram centavos?, disse o promotor.Bené tem sido o principal elo de ligação no esquema de propinas e troca de favores do governo estadual e empresários capixabas desde o início do escândalo, em abril deste ano, quando o prefeito de Cachoeiro de Itapemirim apresentou fitas gravadas por um lobista em que a negociação do ICMS era feita pelos empresários com secretários de governo, incluindo a primeira-dama, ex-secretária de Ação Social Maria Helena Ferreira e seu irmão, ex-secretário de Governo, Gentil Ruy.Os dois foram exonerados no mês passado, quando as invetigações da CPI da Propina se tornaram públicas. Mas o depoimento do contador da cooperativa e os documentos de aprovação do acordo entre Samarco, Escelsa e governo, apresentados nesta quarta-feira à imprensa pelo MP, são importantes, porque essa é a primeira vez que o esquema do ICMS pode começar a ser provado.?Até agora tudo o que a CPI investigava era hipótese. Mas o que temos são provas, documentos?, diz Vello.Nesta quinta-feira, às 14h, Bené deve prestar depoimento, e, nesta sexta-feira, será a vez de Gentil Ruy. Ele vem recusando-se a receber a intimação do MP, mas o promotor Evaldo Martinelli afirmou nesta quarta que, se ele não aparecer, pode ter sua prisão preventiva decretada.Em carta supostamente enviada por Ruy ao governador, ele admite ser responsável pela aprovação de ?pagamentos? feitos com dinheiro público em favor de Bené. Segundo Martinelli, apenas pela carta Ruy pode responder por improbidade administrativa, desvio de verba pública ou peculato.

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