Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Do PSTU para a tropa de Eduardo Cunha

O deputado e dono do restaurante Barganha, Celso Pansera, que pediu a quebra de sigilo da família de Alberto Youssef à CPI da Petrobrás, negou ser 'pau-mandado' do presidente da Câmara; doleiro disse que 'um deputado' o estava intimidando a mando de Cunha

Clarissa Thomé e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2015 | 02h04

Atualizado às 18h37

Rio e Brasília - O deputado federal Celso Pansera (PMDB-RJ), apontado por Alberto Youssef como "pau mandado" do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), diz que o vazamento do depoimento do doleiro é uma tentativa de intimidá-lo e interferir nos trabalhos da CPI. "Tomei como recado e como ameaça física a mim", afirmou ao Estado em Duque de Caxias (Baixada Fluminense), sua base eleitoral.

"Eu me senti intimidado. Não tem sentido, um cara com o poderio que ele tem, se sentir intimidado por ação de um parlamentar. Ele tentou interferir no trabalho da CPI, como quem diz: 'cuidado, sei quem é você. Pau mandado é expressão chula, desagradável. Típica de submundo mesmo."

Nascido em São Valentim (RS), Pansera é um dos seis filhos de agricultores. Diz ter tido infância pobre - a TV só chegou à casa da família quando tinha 15 anos. Na escola, destacou-se na militância estudantil e elegeu-se secretário-geral da União Nacional dos Estudantes (UNE). Aos 26 anos, veio para o Rio.  Foi filiado ao PT, que deixou em 1992 para aderir ao grupo que fundou o PSTU. Chegou a dirigente do partido, conhecido pelo radicalismo de esquerda, do qual se desligou em 2001 por considerar "erro histórico" não apoiar a eleição de Lula. 

Pansera é dono de um restaurante em Caxias, o Barganha. "Achei o nome no dicionário. É um self-service."Também dá aulas voluntárias de Português em curso vestibular para carentes.

Quando o PSTU ganhou a direção do Sindicato dos Bancários em Caxias, do qual foi assessor, passou a militar na Baixada. Em 1998, trabalhou para a reeleição do então deputado federal do PSB Alexandre Cardoso, hoje prefeito da cidade. "Essa proximidade era estranha e incômoda. Isso abriu um fosso do ponto de vista ideológico e programático que acabou com a saída dele do PSTU", disse Cyro Garcia, presidente do partido no Rio. "Rompemos politicamente e hoje ele faz parte de um partido burguês, sustentáculo de governo avesso aos interesses dos trabalhadores, mas nossas relações são amistosas e cordiais".

Cardoso e Pansera deixaram os socialistas quando Eduardo Campos lançou-se pré-candidato a presidente, em 2013, e Pansera foi para o PMDB de Eduardo Cunha. Segundo ele, a primeira vez em que se encontrou com o atual presidente da Câmara foi numa reunião do diretório no final daquele mesmo ano. "A relação de Celso com Cunha nunca foi subalterna. Ele é um estrategista, que sempre pautou pela atuação na esquerda e defende a permanência no governo Dilma", disse o padrinho político.

Na Câmara, divergiu de Cunha ao votar contra a redução da maioridade penal. "Tenho relação franca com ele. Dizem que ele ligou para deputados para que mudassem o voto na questão da maioridade penal. Para mim, nunca. Não abro mão das minhas posições de respeito às liberdades individuais, do direito das pessoas de se autodeterminarem, de serem donas do seu corpo." Sobre casamento gay, diz que "as pessoas têm o direito de fazer sua opção". Sobre aborto, acha que o conceito da lei atual "é bem razoável".

No PMDB desde 2013, foi eleito com 58.534 votos - a primeira vez que se candidatou. A campanha arrecadou R$ 1,2 milhão. Declarou à Justiça Eleitoral ter R$ 575 mil em bens - o bar, um carro Sorento, um apartamento em Caxias e R$ 276 mil no banco.

Pressão. O deputado fluminense protocolou duas vezes na CPI requerimentos pedindo a quebra do sigilo bancário da ex-mulher e de duas filhas do doleiro Alberto Youssef, pediu a convocação do delator Julio Camargo e também de sua advogada, Beatriz Catta Preta, que recentemente deixou a defesa de todos seus clientes, nove delatores, da Lava Jato.

Em audiência na Justiça Federal no Paraná no dia 16, Youssef acusou um parlamentar - sem citar o nome - de ser "pau mandado" do presidente da Câmara e usar a CPI numa tentativa de tentar intimidá-lo.

"Quando ele disse aquilo, recebi como um recado para mim. Mas fiquei na minha e estava torcendo para a imprensa não tocar para frente. Mas aí tive que assumir o assunto quando colocaram minha foto. Ele tem os agentes dele se movimentando por aí", diz Pansera.

Também como prova de que não é um fiel servidor a Cunha, ele diz ser contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff e o rompimento do PMDB com o governo, como defende Cunha. Mas apesar de tantas evidências, ele reconhece que fama de pau mandado pegou. "Fico bem incomodado com

isso. O pessoal me sacaneia no WhatsApp direto. Ficam me chamando de pau mandando. É quase irritante".

Notícias relacionadas
    Tudo o que sabemos sobre:
    Celso PanseraPMDBEduardo Cunha

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Tendências:

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.