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DO INTERIOR DO PARANÁ AO CENTRO DO PODER

Ex-ministro de Lula e Dilma formou a chamada 'República de Londrina' na década de 1990

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2016 | 10h54

Ministro do Planejamento no governo Luiz Inácio Lula da Silva e das Comunicações na gestão Dilma Rousseff, Paulo Bernardo era até a manhã de ontem o último integrante em liberdade de um grupo que ficou conhecido no Estado do Paraná como a “República de Londrina”.

Foi na cidade de pouco menos de 500 mil habitantes que o ex-deputado José Janene (PP), um dos pivôs do escândalo do mensalão (morto em 2010), o ex-deputado André Vargas (PT), preso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro na Operação Lava Jato, e o doleiro Alberto Youssef, principal elo do esquema de corrupção na Petrobrás, começaram suas bem-sucedidas carreiras.

A relação entre esses personagens remonta à construção de uma aliança local formada nos anos 1990, quando o ex-ministro, então um líder sindical dos bancários, elegeu-se deputado federal pela primeira vez.

Em 1992, Bernardo ajudou a unir no mesmo palanque local Assad Jannani (PDT), irmão de Janene, e Luis Eduardo Cheida (PT).

O petista foi eleito prefeito de Londrina e o pedetista seu vice, mas Bernardo não conseguiu emplacar o correligionário André Vargas, então uma promissora liderança ligada aos movimentos sociais da cidade, como vereador.

Em 1994, foi a vez de Janene ser eleito deputado federal. Uma vez em Brasília, ele teria apresentado a Youssef os caminhos do dinheiro público. Pouco mais de uma década depois, em 2009, a Polícia Federal começou em Londrina uma investigação de rotina para rastrear dinheiro de quatro doleiros, entre eles Youssef. Esse foi o embrião da Operação Lava Jato.

A conexão entre Bernardo Youssef foi citada pela primeira vez na Lava Jato em setembro de 2014, quando o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa disse que o doleiro o procurou afirmando ter recebido um pedido de Bernardo no valor de R$ 1 milhão para a campanha de sua mulher, Gleisi Hoffmann (PT-PR), ao Senado.

O outro membro da “República de Londrina”, Janene, foi apontado como mentor do esquema na Petrobrás, enquanto André Vargas foi preso após a revelação de sua relação com Youssef em abril de 2015.

Fiscalista. Bernardo começou sua carreira em São Paulo, mas mudou-se para o Paraná após ser aprovado em concurso do Banco do Brasil em 1982. Filiou-se ao PT em 1985, quando já era uma liderança regional da categoria.

Entre três legislaturas na Câmara dos Deputados, foi uma espécie de curinga para o PT e exerceu os cargos de secretário da Fazenda do Estado de Mato Grosso do Sul entre 1999 e dezembro de 2000 e de secretário da Fazenda da prefeitura de Londrina de 2001 a 2002. Foram essas credenciais que chamaram a atenção do presidente Luiz Inácio da Silva em 2005. Naquele ano, Bernardo se licenciou do mandato de deputado e assumiu o Ministério do Planejamento.

Ele é lembrado como um ministro de linha mais próxima da fiscalista. Em 2005, Bernardo formulou, junto com o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, um plano de ajuste fiscal de longo prazo que, levado ao Planalto para avaliação da então ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff, foi chamado de “rudimentar”.

O plano tinha o mesmo objetivo das diversas medidas de ajuste fiscal apresentadas depois, inclusive as atuais, formuladas pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles: reduzir o estoque da dívida bruta como proporção do Produto Interno Bruto (PIB).

A linha fiscalista foi abandonada no segundo mandato de Lula (2007-2010). Transferido no governo de Dilma Rousseff (2011-2014) para as Comunicações, a primeira missão de Bernardo foi criar meios de popularizar o acesso à internet, por meio de tablets mais baratos. Também foi sob sua gestão que o governo tentou transformar a operadora Oi em uma “supertele” nacional.

A empresa pediu recuperação judicial nesta semana e é o maior caso do tipo da história. No Ministério das Comunicações, Bernardo foi criticado por setores do PT por ter cortado recursos de blogueiros ligados ao partido e “privilegiado” os grandes grupos de comunicação.

Discrição. Após a prisão, foram poucas e discretas as manifestações de apoio no PT ao ex-ministro. “Ele é um fundador do PT. Sempre teve militância e muita capacidade política”, disse o paranaense Florisvaldo de Souza, secretário nacional de organização da legenda.

A defesa mais enfática partiu de um adversário político local, o senador Roberto Requião (PMDB-PR). “A prisão foi um espetáculo a favor do impeachment”, afirmou. / COLABOROU RICARDO GALHARDO

 

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