Do impeachment ao ministério, a saga do professor

Acadêmico brilhante, Mangabeira sonha com a Presidência do País

Carlos Marchi, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2008 | 00h00

A frase vai persegui-lo pelo resto da vida pela dureza das acusações e pela incoerência entre elas e sua posterior conversão ao governo Lula, por mais que ele tente explicar. "Afirmo que o governo Lula é o mais corrupto de nossa História nacional", escreveu o professor Roberto Mangabeira Unger, no artigo publicado em 15 de novembro de 2005. E 582 dias depois, mudou completamente de opinião, pediu desculpas ao presidente e virou ministro do governo que acusara como o mais corrupto. O título do artigo era avassalador: Pôr fim ao governo Lula. A acusação exposta na primeira frase, muito bem qualificada: "Corrupção tanto mais nefasta por servir à compra de congressistas, à politização da Polícia Federal e das agências reguladoras, ao achincalhamento dos partidos políticos e à tentativa de dobrar qualquer instituição do Estado capaz de se contrapor a seus desmandos."Há anos Mangabeira briga com suas duas vocações e tenta sobrepor, a seu brilhante e precoce currículo acadêmico, uma atabalhoada e improvável carreira política. Neto do chanceler do governo Washington Luiz e sobrinho-neto do ministro das Minas e Energia do governo João Goulart, Mangabeira passou boa parte da vida nos EUA, onde adquiriu três marcas - um sotaque irremediável, uma notória aversão ao capitalismo e um respeitável doutorado em Harvard, onde dá aulas.NUM PAÍS DE CHARMOSOSEm 2005, quando tentou ser candidato à Presidência pelo PDT e depois pelo PHS, vergastou-se como um apóstolo: "Falo português com sotaque de estrangeiro. Ando com a perna torta, balançando como barco prestes a soçobrar. Meus cabelos estão tão esbranquiçados e meu rosto tão enrugado que pareço vestígio de época perempta. Sou um homem sem charme num país de charmosos", descreveu-se. Curiosamente, ao entrar no governo, uma de suas preocupações era saber se seu carro oficial poderia ter placa de bronze. Ele justifica o sotaque: "Não penso com sotaque." Mas não o explica, até porque viveu no Brasil dos 22 aos 34 anos, se formou em Direito no Rio de Janeiro e só saiu daqui em 1971, novamente para os EUA - e nesse tempo todo continuou falando como um bostoniano nato. No fim dos anos 70 já estava novamente com um pé no Brasil, ajudando o deputado Ulysses Guimarães a escrever o manifesto do PMDB. No começo dos anos 80 se mudou para o PDT e virou guru de Leonel Brizola. Nos fim dos anos 90 trocou Brizola por Ciro Gomes e o PDT pelo PPS. Em 2005, abandonou os projetos compartilhados e voltou ao PDT para tentar ser, ele mesmo, candidato, com o apoio entusiasmado e solitário de Caetano Veloso. Frustrado, tentou ser candidato pelo PHS. Deu errado e ele migrou silenciosamente para o obscuro PRB, do vice-presidente José Alencar, por meio do qual aderiria ao governo Lula.Antes de aderir ao governo, espancou Lula e o PT como nenhum adversário fez até hoje. No artigo incômodo, cobrou que o Congresso "estava na obrigação de declarar o impedimento do presidente". Disse: "As provas acumuladas de seu envolvimento em crimes de responsabilidade já são mais do que suficientes para atender ao critério constitucional do impedimento". Afiançou que Lula, "desde o primeiro dia do seu mandato desrespeitou as instituições republicanas". Bateu duro: "(Lula) comandou, com um olho fechado e outro aberto, um aparato político que trocou dinheiro por poder e poder por dinheiro e que depois tentou comprar, com a liberação de recursos orçamentários, apoio para interromper a investigação de seus abusos". Desqualificou Lula, escrevendo que ele é "avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado e orgulhoso da sua própria ignorância".Em 2005, veiculou suas idéias num blog. Nele, em 16 de agosto cobrou que não deveria haver preconceitos para o impeachment de Lula. Frisou: "A faculdade de impedi-lo serve de contrapeso ao perigo que de ele abuse da oportunidade para favorecer os amigos, desfavorecer os adversários e confundir negócio com governo." No dia 12 de julho, sentenciou: "O pior ainda não apareceu. O centro da podridão nesse governo da mala preta repousa sobre (...) a troca de favores entre o núcleo do poder e os maiores empresários e banqueiros do país."

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