Do chão de fábrica aos casamentos

Morador do Pari teve de se adaptar

Roberto Almeida, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

18 de agosto de 2008 | 00h00

São 8 horas e Amândio Antonio Failde, de 49 anos, acaba de estacionar seu carro em frente a uma fábrica abandonada no Pari, na zona leste de São Paulo. O cheiro característico de doces e biscoitos não existe mais. Amândio bate a porta, passa a chave e começa a relembrar. Ali ficava a Tostines, marca comprada pela Nestlé, que decidiu transferir toda a produção para o interior de São Paulo em julho de 2006. Durante 15 anos, Amândio carregou seu caminhão de mercadorias da fábrica para distribuí-las por toda a zona leste. Era normal rodar 150 quilômetros por dia para abastecer bares, padarias e restaurantes. Uma trabalheira de domingo a domingo. "Foi muita luta. Muita luta", desabafou, admirando uma foto de seu caminhão. Na imagem, seus pais posavam à frente, sorridentes. O negócio era familiar, cresceu com o passar dos anos, mas perdeu sua raiz: a vocação industrial do bairro, que segundo a Nestlé é parte do passado.A multinacional explicou, à época, que o fechamento da fábrica foi decidida em nome de um melhor aproveitamento do parque fabril em Marília, no interior. A falta de infra-estrutura e problemas de logística também teriam sido cruciais - ruas estreitas, dificuldade de escoamento da produção e excesso de caminhões, como o utilizado por Amândio para entregas.Hoje parte da ex-fábrica da Tostines é ocupada pelo que seria o Shopping Pari, de propriedade de Law Kim Chong, considerado o maior contrabandista do País. O empreendimento de Law foi barrado pela prefeitura. Mas as ruas em torno da ex-fábrica foram tomadas pelo comércio. "O Pari virou do avesso", concluiu Amândio. Moradores do bairro, sempre nostálgicos, concordam.A nostalgia, porém, tem seu lado ruim. Quando Amândio se sente dividido entre o passado distante e o futuro incerto, prefere falar sobre os tempos em que entrava na fábrica para pegar biscoitos direto da esteira de produção.A preferência tem porquê: hoje, Amândio não tem mais a mesma segurança financeira.Sua adaptação à nova realidade econômica de São Paulo foi lenta. Precisou se virar, seguir as transformações da cidade que, para ele, vieram sem aviso. Tentou trabalhar como vendedor autônomo e como corretor de imóveis. Não deu certo. Hoje, para ganhar os mesmos R$ 3 mil dos tempos de entregador de mercadorias, ele precisa de dois empregos. Agora, além de realizar entregas em Mogi das Cruzes duas vezes por semana, Amândio é cantor em cerimônias de casamento.S

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