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Do caos à eleição

Chapa Haddad-Marta contra 'azuis', 'verdes' e 'verdes desbotados' em outubro

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2020 | 03h00

Nada como o caos de ontem em São Paulo, com a cidade dramaticamente debaixo d’água, para nos lembrar que as eleições municipais estão logo aí e o quanto é importante acompanhar os nomes, articulações e alianças em construção para disputar a Prefeitura da mais rica e estratégica capital do Brasil. Aliás, não só dela.

Há ainda muitas dúvidas, mas começa a se desenhar uma chapa no campo da esquerda: Fernando Haddad, do PT, com Marta Suplicy na vice, ainda sem partido definido. Na avaliação dos articuladores, Haddad e Marta têm “recall”, já foram prefeitos da capital paulista e são complementares eleitoralmente, ele com classe média alta e academia, ela com as periferias e movimentos sociais.

Marta não diz claramente, mas já definiu que não quer ser cabeça de chapa, ir a debates, fazer campanha de rua. Também não aceita ser vice de qualquer um, ou uma, apenas de Haddad. São decisões ditadas pelo coração, mas encontram sua dose de pragmatismo nas pesquisas de opinião.

Abdicar de disputar a Prefeitura faz sentido para Marta, que fará 75 anos em março, não quis tentar a reeleição ao Senado, não tem mais prazer em campanhas extenuantes e só mantém uma meta política: voltar à Prefeitura de São Paulo, a função mais gratificante que ocupou em sua vida pública.

Mas, como assim? Ela não quer concorrer a prefeita, só a vice... Sim, mas a campanha à Prefeitura será só um trampolim para Haddad entrar na eleição ao governo do Estado daqui a dois anos. Ou seja: em caso de vitória, ele seria prefeito nos dois primeiros anos e Marta, nos dois últimos.

Haddad ainda demonstra resistência ao projeto, mas soldado não foge da guerra e a gente sabe como é a política: nem sempre se faz o que quer, mas o que é preciso fazer. Isso vale particularmente para o PT, onde todos aguardam o que “o sr. mestre mandar”. O sr. mestre, claro, é Lula

Quanto a Marta, ela ontem jantou com o deputado Paulinho da Força Sindical, principal líder do Solidariedade, assim como tem conversado com a Rede, o PDT e o Pros. Nesses encontros, pede voto para Haddad e dá para apostar que ouve um mar de lamentações contra o PT, o aliado que sempre exige hegemonia, só aceita aliados como coadjuvantes e nunca faz autocrítica.

Em geral, ela ouve convites para ser candidata a prefeita e responde que prefere ser vice. Diante de caretas e má vontade com o PT, joga na mesa um argumento poderoso: pesquisas mostrando que Haddad e Marta têm 80% de chance de chegar ao segundo turno. A partir daí, só pedreira.

Tudo indica que haverá três a quatro forças disputando o primeiro turno. Além da “vermelha”, tem a “azul”, tucana, com o prefeito Bruno Covas e o governador João Dória; a “verde”, bolsonarista, com Datena ou Paulo Skaf, que sonha na verdade com o governo; e a “verde desbotada”, ou dissidente, que pode se lançar solo com a dupla Joice Hasselmann e Janaina Paschoal, ou fechar com a “azul”.

Em todas essas composições há interrogações. E a saúde de Bruno Covas? Datena topa ou vai roer a corda, se preparando para quando 2022 chegar? Se ele desistir, Skaf aceita a vaga? Joice e Janaina têm fôlego para ir tão longe sem o sopro do presidente Jair Bolsonaro? De todo modo, os “vermelhos” parecem mais unidos, os outros se dividem.

Quanto ao segundo turno: é forte a possibilidade de se repetir a velha polarização paulistana, entre direita e esquerda, mas vai ficando inviável os “azuis” de Doria e os “verdes” de Bolsonaro fecharem uma frente contra os “vermelhos” de Lula e Haddad, reforçados por Marta. A ojeriza ao PT continuará sendo um poderoso ativo eleitoral, mas o “Bolsodoria” dificilmente se repetirá. O 2018 já era, o que interessa é 2022.

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