DNA vai indicar se laboratório errou ou vaca "pulou a cerca"

As peripécias de uma vaca no pasto do vizinho podem ser a explicação para o nascimento de um bezerro em vez de uma fêmea clonada em Campinas, a 100 quilômetros de São Paulo. "Embora a vaca seja muito boazinha, ficamos sabendo que ela não respeitava todas as cercas", disse, nesta segunda-feira, o professor José Antônio Visintin, que coordena a pesquisa para clonagem de bovinos na Universidade de São Paulo.O bezerro nasceu no último sábado na Fazenda Panorama, especializada em inseminações artificiais e na qual todos os animais são fêmeas. Mas é possível que a vaca que recebeu os embriões clonados tenha pulado a cerca, literalmente, e se encontrado com o touro do vizinho.Visintin disse que a vaca tinha duas amigas com quem passava a maior parte do tempo e ficava livre para pastar durante a gestação. Por carregar um clone na barriga, evitava-se confiná-la ou submetê-la a qualquer situação de estresse. "Vaca foi feita para andar no pasto. É o melhor lugar para ela", disse Visintin. "Ninguém queria mexer com o animal."Outra possibilidade é de falha humana no laboratório. A equipe de Visintin trabalha com duas linhagens de células para clonagem: uma de fetos e outra de animais adultos. Durante a preparação dos embriões, um pesquisador pode ter usado células da linhagem errada.Bem-humorado, Visintin pesquisador não encara o experimento como uma derrota. A meta do projeto é produzir clones dos dois tipos de célula e descobrir se os de células adultas nascem mais velhos do que os de células jovens. Nesse sentido, o experimento pode ter sido um sucesso. Se as células foram trocadas, o bezerro seria ainda um clone, só que de uma célula jovem, em vez de adulta, que era o objetivo inicial. Seria o primeiro animal clonado no Brasil a partir de uma célula somática (não embrionária). A bezerra Vitória, produzida no ano passado por pesquisadores da Embrapa, foi clonada da célula de um embrião.A resposta virá até quarta-feira, após a conclusão de testes comparativos de DNA com o sangue do bezerro e das duas vacas, a que doou a célula e a que recebeu o embrião. A possibilidade de que seja um clone da vaca adulta está descartada, pois o filhote seria obrigatoriamente fêmea. Além disso, o bezerro, que nasceu perfeitamente saudável, não é um nelore, como sua suposta mãe genética.Há ainda a possibilidade de a vaca ter recebido os embriões corretos, mas ter sido inseminada pelo touro poucos dias antes. Neste caso, os embriões naturais teriam prevalecido sobre os clonados. Outras duas vacas na fazenda estão grávidas de embriões clonados por Visintin, uma no segundo e outra no quinto mês de gestação.A mais precoce será examinada nos próximos 15 dias para determinar o sexo do feto. A outra gravidez está muito avançada e será preciso esperar o filhote nascer, dentro de quatro meses. Se ambos forem machos, ficará confirmada a troca de células no laboratório. A não ser que o touro do vizinho tenha coberto as três vacas. "Se ele pegou as três, eu compro esse touro para mim", brincou Visintin.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.