DNA encerra a polêmica sobre guerrilheiro

Exame confirma que se trata de Bérgson Farias, morto pelo Exército no Araguaia em 1972

Vannildo Mendes e Leonêncio Nossa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

08 de julho de 2009 | 00h00

Identificado extraoficialmente em 2004, o corpo do guerrilheiro cearense Bergson Gurjão Farias, do PC do B, morto por tropas do Exército na guerrilha do Araguaia em maio de 1972, poderá enfim ser sepultado pelos familiares. Em meio à briga política com o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que faz uma expedição em busca de ossadas, o ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, aceitou ontem argumentos da pesquisadora Myrian Luiz Alves e anunciou a identificação do guerrilheiro pelo laboratório Genomic, de São Paulo, com uso da mais moderna tecnologia de DNA, baseada na análise mitocondrial. A família de Bergson foi notificada ontem mesmo em Fortaleza para providenciar os funerais.Em 2005, o Estado publicou na reportagem "X2, um esqueleto no armário da Justiça, incomoda os amigos do presidente", que a ossada de Bérgson causava constrangimentos no governo, que já possuía 12 corpos supostamente de guerrilheiros guardados num armário do Ministério da Justiça. Myrian Luiz Alves, ligada ao PT, travou uma guerra contra setores do governo que não aceitavam seus argumentos de que o corpo era de Bérgson. A versão dela, aceita agora por causa da disputa política, foi classificada de "surrealista" em 2007 por Paulo Vannuchi. "É o dia mais importante da minha vida de pesquisadora, foram sete anos de trabalho e dedicação", disse Myrian, chorando ao Estado, ao saber do anúncio.Em três expedições desde a década de 90, o governo federal recolheu 12 ossadas de supostos guerrilheiros que foram colocadas sob a guarda do Ministério da Justiça. Mas a identificação se arrasta até hoje por causa de atropelos burocráticos.Apenas duas foram identificadas. A primeira foi a da guerrilheira mineira Maria Lúcia Petit, uma das primeiras mortas pelas tropas federais. Seu reconhecimento foi mais fácil porque o corpo estava envolto num paraquedas e ficou mais preservado. Os demais, alguns com membros decepados, foram enterrados em covas simples, e os tecidos foram expostos a processo de deterioração extremo, dificultando a identificação. Bérgson, segundo relatórios e testemunhos à Comissão de Mortos e Desaparecidos, morreu às vésperas de fazer 25 anos, lutando contra uma tropa de paraquedistas do Exército, para garantir a fuga de quatro companheiros que caíram com ele numa emboscada.O ministro informou que a mesma tecnologia será empregada nas dez ossadas. Ele fez um apelo para que militares que participaram da repressão se inspirem no major Sebastião Curió e tragam informações para localizar outras ossadas.

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