Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Divisão de siglas no Congresso será obstáculo para próximo presidente

Fragmentação no centro e crescimento dos extremos devem afetar governabilidade

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2018 | 19h35

Líder em intenções de voto, o candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) teria hoje, se vitorioso, apoio de 191 deputados eleitos na Câmara. Adversário dele, o petista Fernando Haddad contaria, se eleito, com uma representação inicial de até 169 parlamentares.

A soma de Bolsonaro inclui integrantes de seu partido, do PTB, do PSC e do Patriota – os três que aderiram formalmente à candidatura no segundo turno – e de legendas de centro e centro-direita que mostraram predileção por ele, como PSD, DEM, PRB, Podemos, Novo e PRP. A base do deputado pode ser mais elástica e chegar a 307 deputados, se somados MDB, PP, PR e siglas nanicas, que não atingiram a cláusula de barreira e devem perder congressistas.

Já entre os aliados do petista estão contabilizados os coligados PCdoB e PROS, mais os aliados no segundo turno – PSB, PDT, PSOL, Rede Sustentabilidade e PPL –, além de Solidariedade, PV e Avante, legendas que indicaram preferência pela candidatura de esquerda.

No total, 30 partidos elegeram representantes na Câmara – atualmente são 25 na Casa. A fragmentação de siglas médias de centro e o crescimento de bancadas nos extremos do espectro político são tidos como obstáculos à governabilidade, seja de Bolsonaro ou Haddad.

Há expectativa de uma redução para 21 partidos no início da próxima legislatura, porque nove não atingiram a cláusula de barreira. As legendas grandes e médias buscam engordar suas bancadas com os 32 deputados dos nanicos que negociam fusões.

Desafio. Como a aliança partidária formal de Bolsonaro está “longe de ser suficiente”, segundo um dos caciques dispostos a apoiá-lo, um dos desafios será consolidar acordos com os partidos do Centrão – DEM, PP, PR, PRB e Solidariedade –, MDB e PSD para conquistar governabilidade. As siglas têm histórico fisiológico, e Bolsonaro promete não ceder a pressões, que admite existir, por espaço. Mas o candidato já declarou que não demoniza cargos comissionados e não pretende acabar com os cerca de 25 mil existentes.

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Líderes de partidos do grupo veem dificuldades na estratégia de conversar com os deputados no chamado varejo do plenário, uma tentativa de driblar liderança de bancadas e caciques.

O articulador político e virtual ministro da Casa Civil, deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), vem conversando separadamente com parlamentares e caciques. Esteve com o MDB e o PSD e refez pontes no DEM, que terá representantes no primeiro escalão.

“Nenhum partido de centro tem característica de fazer oposição para marcar posição. O projeto que for bom para o País vai passar. Vamos ter um ano de lua de mel. É natural que isso ocorra, porque Bolsonaro vem com muita força da urna, com prestígio, clamor popular”, afirma o líder do MDB, deputado reeleito Baleia Rossi (SP). “Individualmente, cerca de 80%, 90% dos deputados do MDB se declararam votantes do Bolsonaro. O MDB não reivindica cargos, não quer absolutamente nada.”

Bolsonaro conta com a “boa vontade” do PSD, presidido pelo ministro Gilberto Kassab (Ciência e Comunicações), alvo frequente de críticas do candidato. Dos 34 deputados da sigla, só cinco (eleitos na Bahia e em Sergipe aliados ao PT) se opuseram a declarar apoio a ele no segundo turno.

Também do Centrão, PP e PR possuem as bancadas mais divididas entre Bolsonaro e Haddad, por causa de alianças regionais. E a base do Solidariedade tem feito campanha pelo petista. Mesmo assim, dirigentes não colocam nenhum dos três na oposição.

Os partidos querem manter na presidência da Casa o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ). Com trânsito na esquerda, ele desponta como favorito se propuser independência do Palácio do Planalto. A eleição interna, porém, passa pelo partido do presidente eleito, que costuma usar a força do Executivo para tentar emplacar um aliado, seja PT ou PSL, as duas maiores bancadas.

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Em crise interna, o PSDB adotou neutralidade, mas a expectativa é de que deputados apoiem a pauta econômica condizente com o programa do partido, num governo de Bolsonaro, e façam oposição a Haddad.

Esquerda. Partidos que seriam a base de Haddad espelham a oposição a Bolsonaro. Com a tendência de derrota do petista, siglas médias que cresceram, como PSB e PDT, buscam protagonismo. O líder reeleito do PSB, Tadeu Alencar (PE), defende atuação “propositiva”, para não transformar o Congresso em um terceiro turno. “Palavras de ordem já não são suficientes. Não vamos para o enfrentamento puro e simples, ficar apenas na contestação. Temos que puxar o debate econômico, da reforma tributária, do enfrentamento de privilégios, em vez de ceder à pauta primitivista.”

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