Dividida e sob pressão, ditadura cedeu à guerrilha

Presidente Costa e Silva sofrera derrame e Estados Unidos exigiam o embaixador Elbrick livre e vivo

Rio, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2029 | 00h00

Foram quatro dias de tensão na Semana da Pátria de 1969, quando o Brasil - com o presidente Costa e Silva abatido por um derrame e seu vice, Pedro Aleixo, impedido pelos generais de substituí-lo - era uma ditadura governada por uma junta militar desafiada por uma miríade de organizações de guerrilha. O seqüestro do embaixador Charles Burke Elbrick, em 4 de setembro de 1969, foi cometido "em frente" pela Ação Libertadora Nacional (ALN) e pela Dissidência Comunista da Guanabara (DI-GB), que, na ação, assumiu o nome de Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) - na verdade, denominação de outro grupo, desmantelado pouco antes. O objetivo era uma novidade: em lugar de dinheiro, a libertação de 15 líderes de esquerda que estavam na prisão.Quase 40 anos depois, é espantoso que o seqüestro, que desencadeou uma onda de ações semelhantes na América Latina, tenha conseguido atingir essa meta. A improvisação e os erros - por exemplo, levar o motorista do diplomata dominado no carro do consulado até o local onde Elbrick foi colocado em uma Kombi - ajudaram militares a localizar o aparelho onde o embaixador estava, em Santa Teresa, no dia seguinte. Mas os guerrilheiros foram ajudados pela conjuntura: o governo não tinha comando único, estava dividido e sofria pressão dos EUA, que exigia seu diplomata livre e vivo. Então, o manifesto contra a ditadura foi lido na televisão, permitiu-se que os ativistas inicialmente fugissem, e os presos decolaram para o México no dia 6.Não sem reação por parte da extrema direita militar. Tropas de pára-quedistas tomaram a Base Aérea do Galeão para tentar impedir o embarque. Depois de constatar que o avião Hércules já partira com 13 dos 15 integrantes da lista que embarcaram no Rio, os militares invadiram a Rádio Nacional, onde leram um manifesto de repúdio à "medida impatriótica".Em 7 de setembro, os banidos chegaram ao México. Na lista, estavam alguns líderes estudantis, como ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, Vladimir Palmeira e Luiz Travassos; o músico Ricardo Vilas; o ex-sargento Onofre Pinto; o jornalista Flavio Tavares; o líder comunista Gregório Bezerra; o líder sindical José Ibrahim; além de Agonalto Pacheco da Silva, Ivens Marchetti, João Leonardo da Silva Rocha, Maria Augusta Carneiro Ribeiro, Ricardo Zarattini Filho, Rolando Fratti e Mario Zanconato. Um "sucesso" cuja imitação, apesar da repressão que resultou na prisão, morte ou exílio de alguns envolvidos, virou lugar-comum na esquerda latino-americana nos 70."Funcionários brasileiros comentaram que talvez a solução seja matar extremistas, em vez de prendê-los, assim o governo não teria ninguém para trocar", afirma o Memorando de Inteligência de 1970 da CIA, ao falar das possíveis formas de combater o "diplonaping" (seqüestro de diplomatas) .No Brasil, ainda aconteceram mais dois seqüestros: o do embaixador alemão ocidental, Ehrenfried Von Holleben, trocado pela ALN e pela VPR por 40 presos, em 1970, e o do suíço, Giovanni Enrico Bucher, libertado pela VPR em troca de 70 ativistas que estavam detidos, em 1971. A VPR também tentou seqüestrar o cônsul americano em Porto Alegre, Curtis Cutter, mas fracassou.

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