Dívidas podem ter motivado saída de diretor da PF

O ex-diretor-geral da Polícia Federal, Itanor Neves Carneiro, aproveitou a saída do ministro da Justiça, Miguel Reale Júnior, para pedir demissão do cargo, em decorrência da penúria por que passa a instituição. Hoje, a PF deve em torno de R$ 60 milhões. Nem mesmo os R$ 3,7 milhões necessários para dar segurança aos candidatos à Presidência da República foi liberado. O delegado Armando Possa, ex-superintendente no Espírito Santo, está respondendo interinamente pela direção da instituição, cargo que poderá ser efetivado, também pela falta de pretendentes, assustados pelos problemas existentes hoje na PF.Considerada uma das melhores polícias da América Latina, a PF começou a passar por uma série de transformações desde o início do ano passado. O atraso nos repasses pela área econômica do governo transformou a instituição em um grande problema para os superintendentes regionais, que chegaram a ter telefones, luz e água cortados por falta de pagamento. Em Tabatinga, a Operação Cobra, criada para evitar os efeitos no Brasil do combate à guerrilha na Colômbia, quase foi encerrada prematuramente por falta de meios de comunicação.Segundo fontes da PF, Neves Carneiro resolveu deixar o cargo por causa do déficit que se encontra a instituição. Em maio deste ano, as despesas da instituição eram de R$ 27 milhões com fornecedores, a quem já devia R$ 14 milhões relativos à 2001. "É uma situação administrável", afirma um delegado da cúpula da PF. "As Forças Armadas, que também passam por este problema, ainda têm uma vantagem: não estamos em guerra. Mas a polícia sempre está em combate contra o crime organizado."Armando Possa deverá ser efetivado na direção da Polícia Federal, não apenas pelo modo discreto de atuação - bem parecido com Neves Carneiro -, mas também pela falta de delegados interessados em assumir as dívidas e os problemas pelos quais passa a PF. Um deles é a Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef), que está em campanha contra a medida provisória do governo que criou a polícia federal preventiva. "Não vale a pena administrar isso tudo", observa outro delegado ligado ao diretor que deixou o cargo.Possa foi superintendente da PF no Espírito Santo até o início do ano, quando foi convidado por Itanor Neves Carneiro para participar da cúpula da Polícia Federal. No período em que passou pelo Estado, foram registrados as maiores operações contra o crime organizado, principalmente em repressão ao tráfico de drogas. Ele foi substituído pelo delegado Tito Caetano, também ex-integrante da direção da instituição.Se Possa não ficar no cargo, outro nome indicado dentro da PF é do atual superintendente em Pernambuco, Wilson Salles Damázio, que foi o segundo na hierarquia da corporação, durante a administração do delegado Agílio Monteiro Filho, a quem substituiu por várias vezes. Damázio também tem simpatia do Palácio do Planalto, já que teve atuação marcante durante as manifestações de sem-terra, além do auxílio à CPI do Narcotráfico. Delegado formado em combate ao crime organizado, principalmente ao narcotráfico, o superintendente de Pernambuco é tido como da ala operacional da PF. Sua indicação partiria de delegados da ala antiga, principalmente os que atuam no campo. No período em que chefiou a Coordenação-Geral Central Policial, hoje diretoria de Polícia Judiciária, Damázio foi o responsável pelo recorde histórico de ter apreendido mais de 160 toneladas de drogas em um ano.

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