Diversificação é arma do Brasil para liderança no agronegócio

País espera ampliar pauta de exportações e atingir novos mercados nos próximos anos.

Alessandra Corrêa, BBC

31 de março de 2009 | 16h36

A diversificação que permitiu ao Brasil despontar como maior exportador mundial de uma variedade de produtos agropecuários nas últimas décadas também será crucial para consolidar essa liderança e avançar sobre outras áreas até 2020, afirmam analistas.

Apesar de sempre ter tido presença destacada no mercado internacional de produtos agropecuários, foi quando começou a diversificar sua pauta que o Brasil se firmou como grande exportador.

"Nos anos 70, o café representava mais de 60% da pauta de exportações brasileira, enquanto soja e carnes, por exemplo, sequer figuravam nesse ranking", diz o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues.

"Hoje, apesar de ter crescido em termos absolutos, o café representa 6%. Carnes e soja chegam a 45%", afirma.

Além de manter a liderança no café, o Brasil hoje é o maior exportador mundial de carne bovina e de frango, etanol de cana-de-açúcar e do complexo soja (que inclui óleo, farelo e grãos), segundo dados do Ministério da Agricultura.

Está também entre os líderes em um leque de outros produtos, que vão de milho e soja em grão (segundo, atrás dos Estados Unidos) a carne suína e fumo.

"O modelo brasileiro é muito inovador. Não há mais um setor exportador, como era na época do café e nos ciclos anteriores, da borracha, da pecuária", diz o representante regional da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), José Graziano.

"Hoje o Brasil exporta produtos de todo tipo, do mel de abelha do Piauí à soja do Paraná. O setor exportador não é mais um enclave, é parte das cadeias produtivas", afirma.

Segundo o representante da FAO, essa diversificação torna possível também reorientar determinado produto para o mercado interno quando o externo vai mal, como neste período de crise mundial.

Crescimento

Mesmo com esse desempenho já destacado no comércio internacional, ainda há muito espaço para crescer, afirmam analistas. Até 2020 o Brasil deverá aumentar sua importância como exportador de uma série de cadeias produtivas.

"Há pelo menos duas áreas em que podemos crescer espetacularmente: fruticultura e floricultura", diz Roberto Rodrigues.

A fruticultura brasileira já deu um salto nos últimos anos, com o surgimento de polos como o do vale do São Francisco, em Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), que se destaca na exportação de manga e uva.

Em relação a frutas tropicais, especialistas afirmam que, apesar de já marcar presença no mercado internacional, o Brasil ainda pode aumentar o volume exportado.

"Em proteínas animais, vamos dar um grande salto. Suinocultura, produtos lácteos", diz Rodrigues. "Acho também que vamos crescer muito em nichos específicos, como orgânicos."

Novos mercados

Além de incluir novos produtos em sua pauta de exportações, o Brasil deverá também conquistar novos mercados.

O analista Paulo Molinari, da consultoria Safras & Mercado, cita entre os mercados que podem ganhar importância para o Brasil na próxima década o México (carnes), a China (frango) e os Estados Unidos (que ainda não compram carne in natura brasileira).

Para ampliar essa participação no comércio internacional, porém, o Brasil ainda precisa vencer a barreira do protecionismo, que pode se agravar com a atual crise econômica mundial.

Segundo Roberto Rodrigues, o Brasil precisa criar mecanismos de promoção comercial. O ex-ministro diz que também é necessário agregar valor e realizar negociações privadas entre produtores brasileiros e distribuidores internacionais.

"Veja o exemplo do café. O Brasil é o maior exportador, mas tem menos de 2% do mercado mundial de café torrado e moído, que está concentrado na Alemanha e na Itália, que não produzem sequer um pé de café", diz.

De acordo com Rodrigues, se o Brasil quiser torrar e moer o café aqui, para depois exportar, precisa de um acordo com os distribuidores. "Se não tiver um acordo, (o café) fica no porto, ninguém pega."

Conforme analistas, com a paralisação da Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), que busca a liberalização do comércio internacional, torna-se mais importante a ampliação das negociações bilaterais entre os países.

"Os interesses são gigantescos. A negociação passa por todo um acerto tecnológico, sanitário, ambiental, e por acordos comerciais também. É uma longa disputa", diz Rodrigues.

"Estamos, na verdade, aprendendo a mexer com isso. Mas estamos aprendendo depressa."BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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