'Ditador igual a Chavez' e 'dentro das 4 linhas': parlamentares reagem à declaração de Bolsonaro

Governistas e oposição disputam narrativas em defesa e contrárias a decisão do presidente de pedir abertura de processo no Senado contra Moraes e Barroso. #ReagePacheco aparece entre temas mais comentados

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2021 | 13h30
Atualizado 15 de agosto de 2021 | 14h36

A declaração do presidente Jair Bolsonaro sobre a abertura de um processo de impeachment no Senado contra os ministros do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes, repercutiu amplamente entre a classe política na manhã deste sábado, 14. Senadores e deputados se dividiram entre mensagem de apoio e de repreensão ao movimento do presidente, que prometeu apresentar o pedido para a instauração do procedimento na próxima semana.

Enquanto uma ampla frente de parlamentares saiu em defesa dos ministros, classificando o avanço de Bolsonaro como um sinal de autoritarismo, apoiadores e aliados - impulsionados pela rede bolsonarista nas redes - saiu em defesa do presidente, afirmando que o procedimento sinalizado está de acordo com a lei. #ReagePacheco estava entre os tópicos mais comentados no Twitter até o início da tarde. 

Ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (sem partido-RJ) comparou a iniciativa de Bolsonaro contra os ministros com as ações do ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez. "Assim atuam os populistas. Depois de eleitos, atacam as instituições democráticas e tentam destruir a democracia representativa e o Estado democrático. É, na verdade, um ditador igual a Chávez", escreveu em seu Twitter.

O caráter autoritário da manobra prometida por Bolsonaro também foi alvo de crítica de vários parlamentares, como senador Humberto Costa (PT-PE). "Cada vez  acuado por conta de uma série de denúncias contra o seu governo, Bolsonaro tenta mais uma vez intimidar a Justiça. A olhos vistos, o presidente avança no seu discurso autoritário. É preciso dar um basta de uma vez por todas nessa milícia golpista", disse.

Uma das primeiras reações favoráveis a Bolsonaro veio de seu filho 03, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Em resposta à publicação do pai, Eduardo afirmou que a medida está "dentro das quatro linhas da constituição".

O argumento de Eduardo foi endossado por Janaina Paschoal (PSL), deputada estadual em São Paulo e uma das principais mobilizadoras pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. "Impeachment não tem nada a ver com golpe, ou com ditadura. Quem fala em impeachment age nos limites da Constituição Federal, independentemente de se  concordar ou divergir do mérito da causa", escreveu.

Puxões de orelha

Em vez de repercutirem a declaração do presidente sob o viés da legalidade, alguns parlamentares optaram por fazer cobranças ao presidente e fazerem alertas sobre o caminho aberto pelo procedimento. O senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP), que abertamente faz oposição ao governo, sendo um dos líderes da oposição na CPI da Covid, respondeu à publicação mandando Bolsonaro "pegar no serviço".

"Bolsonaro, vá trabalhar! Ao invés de arroubos autoritários, que serão repelidos pela democracia, vá pegar no serviço! Estamos com 14 milhões de desempregados, 19 milhões de famintos, preço absurdo da gasolina, da comida. E o povo continua morrendo de COVID-19! VAI TRABALHAR!", escreveu.

Em outra abordagem diferente, a senadora Simone Tebet (MDB-MS) alertou Bolsonaro que pressionar o Senado pela abertura de um processo de impeachment pode ter um efeito não desejado. "Presidente vai mesmo pedir ao Senado o impeachment de ministros do STF? Quem pede  pra bater no "Chico", que mora no Inciso II, artigo 52, da CF, se esquece de que o "Francisco" habita o Inciso I, do mesmo endereço", escreveu, fazendo referência ao inciso do mesmo artigo da Constituição que trata sobre a instauração e abertura, pelo Senado, de processo contra o presidente da República por crime de responsabilidade.

'Cortina de fumaça'

Outros parlamentares classificaram as mensagens de Bolsonaro como mais uma "cortina de fumaça" do governo federal, para mascarar situações mais urgentes e que afetam diretamente o presidente.

"Depois do desfile fracassado dos tanques na esplanada, agora Bolsonaro quer o impeachment dos ministros do STF. A criatividade para cortina de fumaças não tem limites. E, mais uma vez, quem extrapola os limites constitucionais é o presidente", escreveu a deputada federal Tabata Amaral.

O mesmo foi observado pelo senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), que vê na iniciativa uma "distração" para esconder crimes do próprio presidente. "Ministros do STF podem e devem ser investigados por fatos concretos, mas o tal pedido de impeachment que Bolsonaro pretende apresentar contra Barroso e Moraes é só + uma cortina de fumaça para tentar esconder o mar de crimes comuns e de responsabilidade que o próprio PR cometeu".

'Delírio'

Opositores do presidente também se referiram ao eventual pedido do presidente como "delírio" e "sandice". O deputado federal Orlando Silva (PCdoB) afirmou que o presidente investe na crise, mas que a iniciativa atual é apenas "para dar satisfação à milícia digital". Ele também afirmou que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), "não dará ouvidos à sandice".

Presidente nacional do Cidadania, o deputado Roberto Freire (SP), disse se tratar de "mais um delírio" do presidente. Freire também vê o processo como uma eventual distração à queda de popularidade do presidente.

"Em mais um delírio totalitário-típico de tiranetes de Repúblicas de Bananas-Bolsonaro pensa falar pelo povo, esquecendo que tem apenas 25% de aprovação(e caindo).O que a maioria da população quer é seu impeachment.Ele é a inflação,desemprego,corrupção e necrofilia. Ele é a crise.", escreveu.

'Vigília democrática'

A maioria dos nomes apontados como pré-candidatos à Presidência da República optou por não repercutir a declaração do presidente. Uma exceção foi Ciro Gomes (PDT), terceiro candidato mais votado no pleito de 2018, que convocou uma "vigília democrática" para resistir aos avanços do presidente.

"Quando um país chega a um limite como este, é sinal que todos, sem exceção, falhamos. E que precisamos acordar deste pesadelo. É hora, portanto, de uma grande vigília democrática! Não é por acaso que esta crise institucional esteja sendo gerada por um presidente que é alvo de cinco inquéritos no STF; de um outro no TSE, e contra quem dormitam, na gaveta do presidente Câmara, mais de 100 pedidos de impeachment. Dois deles, inclusive, assinados por mim", disse o presidenciável em vídeo gravado neste sábado.

Ciro ainda afirma que o objetivo de Bolsonaro ao enviar essa mensagem ao Congresso é  "jogar sua ruidosa horda de apoiadores na rua, provocar convulsão social e requisitar os célebres mecanismos da lei e da ordem que justifiquem alguma ação militar".

"É hora de darmos um basta aos abusos de Bolsonaro. Não podemos deixar que ele continue impunemente testando nossos nervos e a musculatura de nossas instituições. (...) temos que mostrar, principalmente, que não temos sangue de barata. Impeachment, já, para quem merece! Impeachment não de ministros do STF, mas de um presidente que está devendo muito ao país e à democracia brasileira."

'Ventríloco do sistema'

Mesmo sem um projeto apresentado formalmente, alguns apoiadores do presidente já deram o próximo passo em relação ao próximo passo no embate com os ministros. O deputado federal Otoni de Paula (PSC-RJ), que é aliado do presidente em seu principal reduto eleitoral, o Rio de Janeiro, partiu para a ofensiva contra o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, que será o responsável por receber o eventual pedido de abertura de inquérito.

"Tenho certeza que o sr sabe o que está fazendo PR, mas lamento que sua atitude louvável servirá de deboche nos "bastidores da canalhice", pois o sen Rodrigo Pacheco é um ventríloquo do sistema e pré candidato a presidente em seu lugar. Presidente, nessa guerra não haverá empate", escreveu o deputado.

Otoni também defendeu uma manifestação de rua a ser realizada no dia 7 de setembro, tendo como pauta única o artigo 52 da Constituição. "Temos que forçar o senado federal a abrir processo de impeachment contra Moraes e Barroso. Ou eles abrem o impeachment ou PARAMOS O PAÍS POR TEMPO INDETERMINADO. Não é mais por Bolsonaro é pela nossa liberdade".

 

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