Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Distribuição de comida e atos contra Doria reforçam imagem da Ceagesp como reduto bolsonarista

Manifestação nesta quinta criticou proposta de aumento de impostos para alimentos mesmo com promessa de recuo do governador

Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

14 de janeiro de 2021 | 20h38

Com um coronel reformado da Polícia Militar à frente da empresa e opositores a João Doria (PSDB) em sua operação, a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado de São Paulo (Ceagesp) se transformou no principal reduto bolsonarista de São Paulo. O local foi o palco nesta quinta-feira, 14, de um protesto contra o aumento de impostos de alimentos – do qual Doria já recuou – em que 60 toneladas de alimentos foram distribuídos à população.

A Ceagesp deu apoio institucional ao protesto, realizado pelos vendedores que trabalham no entreposto. Seguranças da companhia organizaram a fila de milhares de pessoas que foram até lá receber cestas com frutas, verduras e legumes, distribuídas com ajuda do pessoal administrativo. A entrega se deu ao som do hino nacional

O coronel reformado da PM Ricardo Mello Araujo preside a Ceagesp desde outubro do ano passado. Ex-comandante das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), grupo famoso pelos índices de letalidade policial, o PM se aproximou do presidente Jair Bolsonaro ainda em 2017. Araújo foi procurado pelo então deputado após dizer em entrevista que os salários dos PMs eram baixos e que votaria em Bolsonaro para presidente. 

Já parte dos permissionários tem atritos antigos com governos tucanos. Em 2016, comerciantes ficaram contrariados com as propostas de remoção da Ceagesp do local onde ela está, na Vila Leopoldina – alvo da cobiça de urbanistas e do setor imobiliário. Doria, como prefeito e como governador, reforçou esses compromissos, mas se viu impedido de realizar a transferência após Bolsonaro vetar a medida – a Ceagesp é uma empresa federal e a palavra final sobre o plano é de Brasília. Bolsonaro esteve na Ceagesp no fim de dezembro para anunciar que não haveria privatização. Foi recebido por uma multidão vestida de verde e amarelo.

O presidente da Ceagesp disse que a distribuição de alimentos já ocorre às quintas-feiras. “Os comerciantes tiveram a ideia de fazer uma manifestação inteligente, que era usar essa doação para fazer uma super doação e mostrar que esse aumento do governador é uma insanidade”, disse Araújo, ao justificar o apoio institucional ao protesto. “Esse negócio de ‘fique em casa’ funciona para quem tem dinheiro”. Araújo negou, porém, que o apoio aos comerciantes fosse uma ação política contra o governador. “O que ele está fazendo é uma insanidade, mas distribuímos alimentos todas as quintas.” 

O presidente do Sindicato dos Permissionários em Centrais de Abastecimento de Alimentos do Estado de São Paulo (Sincaesp), Claudio Furquim, elogiou a gestão de Araújo dizendo que ele retirou indicações políticas da companhia, e disse que o protesto de ontem não era uma disputa política entre os governos federal e estadual. “Estamos aqui para sensibilizar o governador para revogar definitivamente o aumento dos alimentos”. 

Protesto

A notícia da distribuição gratuita de cestas com frutas, legumes e verduras, que totalizavam 10 quilos de alimentos, atraiu uma fila de quase três quilômetros, da Estação Ceasa da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) até o portão 7 da Ceagesp. As pessoas, muitas delas de chinelos, levaram sacolas de feira ou carrinhos. Mas apenas 3 mil senhas haviam sido distribuídas – os comerciantes, que previam doar 30 toneladas de alimentos, dobraram o total para 60, diante do público. A multidão se dispersou pouco depois da 14h, quando uma tempestade atingiu a região.

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