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Dissimulados. Ou não

Duas premissas não cabem na mesma tese: 1. O ex-presidente Luiz Inácio da Silva é o gênio da raça em matéria de política. 2. A presidente Dilma Rousseff, avessa ao ramo, isolou o antecessor, afastando-o do centro das decisões políticas do PT e do governo.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2015 | 02h03

Uma nega a outra e a partir delas é impossível encontrar lógica no cenário em que ultimamente Dilma aparece como aquela que deu uma "rasteira" no criador, subtraindo-lhe influência e poder. Há peças fora do lugar na cena de um Lula enfraquecido quando o que se dizia no ano passado era que ele teria presença marcante no segundo mandato.

Para aceitar como verdadeira a versão de que ela o tirou do jogo, é preciso partir do pressuposto de que ele seja um jogador ingênuo, inábil, obtuso mesmo, e Dilma, uma articuladora de escol. Como nada disso é verdade, parece mais uma encenação.

O objetivo? Dado o gosto desse grupo pela mistificação como maneira de lidar com a realidade, hipóteses não faltam. Faz sentido, por exemplo, o "redesenho" da presidente senhora de todo seu poder, governando com aqueles de sua estrita confiança, segura, livre de tutelas, sobranceira - como gosta João Santana, o arquiteto da imagem.

Ademais, Lula não precisa demonstrar poder nem influência. Ele tem. Ou Joaquim Levy foi parar no Ministério da Fazenda por influência de quem? Não seria inteligente o ex-presidente levar a termo desde já o plano anunciado pelo presidente do PT, Rui Falcão, em entrevista ao Valor (agosto de 2014), sobre o papel de protagonista que teria nesses quatro anos. "(Antes) Houve um distanciamento planejado e deliberado por parte dele, agora precisamos eleger Dilma para Lula voltar em 2018."

A execução de projetos requer etapas. E a atual, pelo visto, é a de Lula calar. Não fosse assim, o PT não assistiria inerte à disseminação de versões sobre o enfraquecimento político do líder. A voz de comando pertence a ele. Dilma tem o Diário Oficial, mas Lula representa a continuidade e a sobrevivência. No dia 31 de dezembro de 2017, a atual presidente significará coisa alguma em termos de projeto político.

Apenas para raciocinar por absurdo tomando como verdade a história que Dilma brigou com Lula e está no domínio: se ele acordasse "invocado" e resolvesse criar um novo partido, os petistas ficariam com ela ou o seguiriam? Pois é, para informação do senhor e da senhora, esse tipo de indagação permeia conversas de gente do PT que vê com desconfiança os relatos da "briga".

Ou melhor, até prefere enxergar com desconfiança. Porque se houver alguma possibilidade de a presidente Dilma Rousseff realmente achar que reúne condições objetivas para enfrentar e derrubar Lula no campo dele, a política, a chance de dar certo seria zero.

De onde, para felicidade geral da nação, melhor esperar que estejam sendo apenas dissimulados.

Reserva. O nome do prefeito do Rio, Eduardo Paes, entrou no radar de gente "alta" no PMDB. Coisa remota ainda. Águas que desembocam em 2018 passam antes pela Olimpíada de 2016 e por toda uma relação a ser reconstruída ou destruída de vez entre o PT e o partido que é vista como uma possibilidade de renovação de imagem para os peemedebistas.

Fé de Braga. O ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga, garantiu que a presidente da Petrobrás, Graça Foster, continua no cargo. Até porque, se não garantisse, não seria ministro.

Penúltimo capítulo. "Agora é aguardar as forças sedimentarem, começar a entender a burocracia da saída e avaliar o melhor caminho" (Marta Suplicy).

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