Dissidente vê risco de confronto em transição cubana

Payá diz que repressão à oposição piorou desde que Fidel ficou doente.

Denize Bacoccina, BBC

19 de janeiro de 2008 | 14h00

O dissidente político Oswaldo Payá, um dos líderes da oposição a Fidel Castro e seu governo em Cuba, acredita que existe um risco de confronto na transição de poder com a morte de Fidel, afastado da presidência por problemas médicos desde julho de 2006."Sim, existe este perigo de confrontação, porque já existe a violência aplicada pelo regime", afirmou Payá em entrevista à BBC Brasil.Líder do Movimento Cristão de Liberação, ele diz que o seu grupo defende a reconciliação, mas que a repressão à oposição aumentou a partir da doença de Fidel. "A oposição está sendo perseguida, com poucos meios, e muito difamada pelo governo", disse ele.Payá é constantemente vigiado pelas forças de segurança do governo e cerca de 40 participantes do movimento estão presos. Ele não pode deixar o país. Só foi autorizado a viajar em 2002, quando o Parlamento Europeu lhe concedeu o prêmio Sakharov, de direitos humanos. Há pouco mais de um ano, diz ter encontrado um microfone escondido dentro da caixa de telefone do quarto.Ele defende posições que são polêmicas entre outros grupos que se opõem a Fidel. É criticado por defender o direito dos cubanos no exílio de participar das decisões sobre o futuro do país, ao mesmo tempo que é criticado por estes exilados por não concordar com a devolução das propriedades confiscadas depois da revolução aos seus proprietários anteriores.BBC Brasil - Desde que Fidel Castro se afastou da presidência por sua doença, fala-se muito em mudança em Cuba, de uma transição. Como está a oposição?Oswaldo Payá - Desde que Fidel adoeceu, começou a se tomar uma consciência, em toda a sociedade, de que este regime vai acabar. Mas além desta consciência, vai se despertando cada vez mais um desejo profundo de mudança, de uma vida nova, depois de cinco décadas de um regime fechado, sem direitos civis nem liberdade de expressão, sem liberdade de movimento, em que houve um processo de descristianização e em que o Estado se apropria de todos os aspectos da vida das pessoas. A oposição está sendo perseguida, tem poucos meios, é muito difamada pelo governo. Mas a oposição assinou um manifesto proposto pelo nosso movimento, o Movimento Cristão de Libertação, chamado Unidade pela Liberdade. É um manifesto em que dizemos que queremos mudanças pacíficas, queremos direitos para todos os cubanos, queremos a reconciliação, queremos a solução entre cubanos. Estamos começando uma campanha cívica chamada Foro Cubano, que defende a libertação dos presos políticos pacíficos, presos por defender os direitos humanos. Quando se questiona se os cubanos estão preparados para a democracia, o que nós dizemos é que não estamos preparados é para continuar vivendo na opressão. Queremos os nossos direitos.BBC Brasil - Com a possibilidade de mudança, houve algum diálogo entre governo e oposição?Payá - O Foro Cubano, além da campanha com os cidadãos, tem uma proposta de diálogo com o governo. Mas a única mudança que houve na relação foi mais pressão no trabalho, na minha casa, sobre pessoas da minha relação e os que participam do Foro Cubano. Se sabem que vamos nos reunir não nos deixam sair de casa. Já houve grupos de profissionais que vieram à minha rua para atos de pressão. Também colocaram cartazes me chamando de traidor. Se fosse um governo convencido da sua ética, com confiança no apoio do povo, não precisaria reprimir, prender pessoas que propõem uma alternativa, que se atrevem a dizer suas idéias quando são diferentes.BBC Brasil - Há quem fale que é possível haver uma grande ruptura e até uma guerra civil. Acha que este risco existe?Payá - Todo o nosso trabalho tem sido para conseguir direitos de forma pacífica. Mas o governo fecha as portas, com suas agressões, com sua arrogância, com esta linguagem insultante à inteligência dos cubanos, com esta cegueira muito parecida com a das oligarquias. Ele não vê o momento em que o povo quer mudança. Há uma cultura de medo, e nós achamos que isso só se dissipa com diálogo, com um espírito de reconciliação. Sim, existe este perigo de confrontação, porque já existe a violência aplicada pelo regime.BBC Brasil - Outro perigo que se diz é de uma interferência dos Estados Unidos, e até de uma invasão.Payá - Nossa posição é que jamais aceitaremos que as mudanças sejam fruto de uma intervenção estrangeira. As mudanças só cabem aos cubanos. Seria um erro e uma injustiça qualquer intervenção. Não acredito que o governo e a maioria dos americanos queiram interferir em Cuba. Não quero especular se há um perigo, mas está dentro das probabilidades. Mas nós rechaçamos qualquer intervenção, não aceitaremos de nenhuma maneira.Mas já há uma linguagem de confronto, que já dura muitos anos. Nós dizemos de maneira muito clara: não queremos embargo, não queremos confronto, não queremos Lei Helms-Burton. Sim, queremos apoio e solidariedade. Que não critiquem os Estados Unidos por apoiar os direitos humanos em Cuba. Que os critiquem pelo embargo.BBC Brasil - Acredita que o embargo ajuda a pressionar o governo?Payá - Não acreditamos que o embargo seja fator de mudança em Cuba e não aceitamos que ninguém nos diga que para que se respeitem os direitos humanos em Cuba tem que acabar o embargo. Não queremos embargo e nem queremos a violação dos direitos humanos em Cuba.BBC Brasil - Boa parte dos exilados de Miami quer uma mudança bastante radical, para que Cuba se torne mais parecida com os Estados Unidos. É o que vocês querem também?Payá - Creio que esta é uma visão superficial. Nós temos muito bem definido no Projeto Varela, no projeto Cuba para Todos e agora no Foro Cubano, que queremos mudança entre cubanos. Sem intervenção estrangeira, mas com solidariedade. Como houve com o Brasil, quando tinha ditadura, como houve com o Chile, com a África do Sul. A nossa proposta é mudança pacífica entre cubanos, que dá direitos a todos os cidadãos, para que os cubanos possam decidir. Que se continue com a saúde e a educação gratuita, que são bens dos cubanos. Ao mesmo tempo não acreditamos que devemos dar um salto ao neoliberalismo, ao capitalismo selvagem, mas sim à liberdade econômica. Hoje, há empresários brasileiros em Cuba, também britânicos, russos, espanhóis, japoneses. Mas os cubanos não podem ter empresas. Os cubanos não podem entrar e sair livremente de seu próprio país. Queremos uma sociedade onde prevaleça o direito, a liberdade econômica, não a privatização desenfreada, mas também a solidariedade. Acreditamos que o nosso povo, com a liberdade que não tem agora, possa construir uma sociedade mais justa, livre, com todos os direitos, com liberdade econômica e uma dimensão humana e social, porque o nosso povo tem a experiência e tem a capacidade. Lhe falta a liberdade.BBC Brasil - Agora se vê uma abertura econômica. Havana está muito diferente do que há alguns anos, com muitas lojas. Acha que esta abertura econômica pode levar a uma abertura política?Payá - Não há abertura econômica, não há empresários cubanos, somente estrangeiros, ou em sociedade com o Estado. O que acontece é que circulam duas moedas, as empresas estrangeiras pagam salários ridículos aos cubanos e pagam por seu trabalho ao governo. Os cubanos não têm direito a ter essas empresas nem a ter sindicatos. Esta modificação da paisagem econômica não significou direitos, apenas que os cubanos que vivem fora podem mandar seus dólares e desta maneira aliviar a vida de muitos cubanos aqui. Mas também passou a haver uma grande diferença. Cresceu a marginalidade e a pobreza, enquanto há uma casta dirigente que viaja, manda seus filhos para fora. Vivem como ricos e não se pode saber o que tem, porque o regime reprime quem tenta questionar essa oligarquia. Este é o grande contraste, esta é a grande fraude. É melhor que todos tenham direitos do que alguns tenham privilégios. 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