Dida Sampaio/AE
Dida Sampaio/AE

'Disse a Lula que estou debaixo de pancada', diz Minc

'Alguém do governo solapar a própria posição do governo é a casa da mãe joana', ataca ministro

Fabiana Cimieri, de O Estado de S. Paulo,

29 de maio de 2009 | 23h34

Apesar de dizer que não colocou "a faca no pescoço" do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na conversa de anteontem sobre as sucessivas derrotas de sua pasta, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, afirmou que não vai liberar a obra da BR-319 (Manaus-Porto Velho) sem o cumprimento de normas para evitar o desmatamento ao redor da estrada. "Licenciar sem os 10 pontos que eu próprio defini é pegar a cabeça, botar lá e esperar alguém cortar."

 

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Outra questão que preocupa o ministro é a pressão de "um grupo de empresários ligados a políticos" que comprou terras na Bacia do Alto Paraguai para o plantio de cana-de-açúcar. "Se um pedacinho estiver contaminando o Pantanal, vão dizer que todo o etanol brasileiro é antiecológico e colocar uma barreira comercial com esse pretexto", disse Minc. "Expliquei a Lula e ele disse que ia decidir brevemente, mas que não podia colocar em risco o etanol brasileiro." Esses dois pontos são considerados essenciais pelo ministro, que, em entrevista ao Estado, disse que estava se sentindo enfraquecido até o encontro a sós com o presidente.

 

A seguir, trechos da entrevista.

 

Como foi e qual a avaliação de sua conversa com o presidente Lula?

 

No início do governo eu ganhava e perdia. Ganhei o Fundo da Amazônia, as metas do clima, o decreto do crime ambiental e licenciei Angra 3 sem concordar. Agora desequilibrou. Dei vários exemplos, como a questão das cavernas, o decreto da compensação ambiental, pessoas do governo indo ao Congresso e modificando a medidas já acordadas. Disse ao presidente que estou debaixo de pancada. Se ficar fraco, não vou conseguir combater o desmatamento e dar boas licenças. O Lula disse que fui razoável em seis dos oito pontos que coloquei. Saí 30 quilos mais leve, cheio de garra para enfrentar os poluidores.

 

Diante das dificuldades, o sr. cogita colocar o cargo à disposição?

 

Em nenhum momento disse que ia sair, ameacei ou insinuei. Apenas usei a seguinte expressão: "Como posso defender o País se cada vez menos o ministério mantém sustentabilidade política?" Qual é a ameaça ambiental mais preocupante hoje? O licenciamento da BR-319, uma estrada que atravessa o coração da Amazônia. Parei o licenciamento e criei um grupo de trabalho que elaborou 10 normas prévias. O ministro (dos Transportes) Alfredo Nascimento, que vai concorrer ao governo do Amazonas e tem um prazo por causa da chuva e da empreiteira, quer que essas dez condições sejam cumpridas depois da licença. Falei para o Lula que sou contra a BR-319. Estou ética e moralmente impedido de licenciar sem o prévio cumprimento dos 10 pontos. Se isso afetar o tempo da licitação, do governador, da chuva, só lamento. Se não cumprir, não assino. O presidente disse que respeita e ia comunicar ao ministro.

 

E a questão do plantio de cana no Pantanal?

 

A área em questão não é no Pantanal, mas na bacia hidrográfica do Pantanal. Descobri que empresários de Mato Grosso, ligados a políticos, compraram terras e já têm uma infraestrutura ali. Não é preocupação nacional, é interesse particular. Vai acontecer que outros países criarão barreiras contra o etanol brasileiro usando o argumento ambiental.

 

O sr. reclamou com o presidente que outros ministros estavam fazendo lobby no Congresso para modificar acordos realizados durante as reuniões ministeriais. Como ele reagiu?

 

Ele disse: "Você está coberto de razão". Alguém do governo solapar a própria posição do governo é a casa da mãe joana. Não tem sentido a gente acordar alguma coisa, alguém dar uma de joão sem braço e tirar aquilo que não lhe agrade.

 

Como foi o tom da conversa?

 

Recheada de humor. Quando o presidente ficou com as sobrancelhas circunflexas eu brinquei dizendo para ele relaxar ou os cartunistas iriam se aproveitar. Mas, como não sou ingênuo, tenho de ficar de olho no cumpra-se disso tudo. Relatei o que o presidente combinou comigo, mas agora vão chegar todos os outros dizendo que não é bem assim.

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