Guará Fotografia / Divulgação / Alex Silva / Estadão
Guará Fotografia / Divulgação / Alex Silva / Estadão

Disputa política em Minas trava hospital para pacientes com coronavírus

Construção de 500 leitos é suspensa após impasse entre governador e prefeito de BH

Leonardo Augusto, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2020 | 05h00

BELO HORIZONTE - Um embate político entre o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), impediu a construção de um hospital de campanha, com capacidade para cerca de 500 leitos, destinado ao tratamento de pacientes com covid-19. Até ontem, Minas tinha 14 mortes confirmadas por coronavírus e outros 97 óbitos sob investigação. Ao todo, foram 614 casos confirmados para a doença, de acordo com informações da Secretaria Estadual de Saúde

O hospital seria construído na esplanada do estádio Mineirão. A estrutura seria bancada pela prefeitura em parceria com empresa do setor de mineração. A concessionária que administra o estádio já havia autorizado a obra e, segundo o prefeito, foi acertado com Zema. 

Porém, na segunda-feira passada, Kalil informou que o hospital não seria mais construído depois do que classificou de proposta “imoral, indecorosa e politiqueira” por parte do Estado, que é o dono do Mineirão. A proposta citada pelo prefeito foi apresentada pelo secretário estadual de Infraestrutura e Mobilidade, Marco Aurélio Barcelos, segundo a qual Kalil e Zema deveriam aparecer juntos em apresentações públicas que envolvessem o hospital. 

“O Estado não cedeu a esplanada para a prefeitura de Belo Horizonte, infelizmente, apesar de que eu já tinha combinado pessoalmente com o governador. E, depois, um secretário, Marco Aurélio Barcelos, que é um garotinho, acho que tem 39 anos, fez uma proposta imoral, indecorosa e politiqueira para ceder o espaço”, disse Kalil, em entrevista coletiva na segunda-feira. “Quero dizer a esse rapaz que isso não é hora de promover o governador, de promover governos. É hora de salvar vidas”, acrescentou.

O Estado procurou a assessoria de comunicação do governador, que encaminhou nota da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Mobilidade. A Secretaria afirmou, em nota, que ofereceu na semana passada o espaço para a montagem do hospital de campanha pela prefeitura “sem qualquer custo”. Mas, “por se tratar de um equipamento administrado por empresa privada, contratada pelo Estado de Minas Gerais, informou-se que seria necessária a atuação conjunta de ambos os entes para a realização do empreendimento, tendo sido a Secretaria Municipal de Saúde comunicada de que as equipes da Seinfra estavam de prontidão para dar andamento a todas as medidas jurídicas e operacionais necessárias”.A nota diz ainda que “a oportunidade de atuar em conjunto com as autoridades municipais neste momento de crise independe de preferências ou de qualquer contexto eleitoral”.

Kalil afirmou ter resolvido o problema em acerto feito entre as secretarias estadual e municipal de Saúde e os hospitais Santa Casa de Misericórdia, São Francisco e São José. Conforme o prefeito, houve um remanejamento que tornou possível oferecer mil leitos especificamente para atendimento a pacientes acometidos pela covid-19. Segundo a assessoria da prefeitura, os leitos serão montados na medida em que for identificada demanda pelo sistema de saúde na cidade.

Isolamento

Zema e Kalil já haviam se estranhado no início da adoção de medidas de isolamento social como forma de reduzir a velocidade do contágio do novo coronavírus. O prefeito, no dia 18 de março, disse que o governador não havia adotado medidas necessárias em relação ao comércio nas cidades. 

Ao mesmo tempo, decretou o fechamento de lojas consideradas não essenciais e regras sanitárias para o funcionamento de estabelecimentos como lanchonetes, que não podem permitir a entrada de clientes, e restaurantes, que só podem funcionar com entregas em casa. Zema retrucou afirmando que essas decisões deveriam ser tomadas pelos prefeitos e que o momento “não era para bate-boca”.

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