Disputa na Câmara cria bloco que aspira enfrentar PT em 2010

A acirrada disputa na base aliada, com a eleição do petista Arlindo Chinaglia (SP) presidente da Câmara, deixou como um de seus saldos a constituição de uma frente de esquerda que aspira rivalizar com o PT. O bloco, uma idéia antiga, nasceu do conturbado processo eleitoral da Câmara, "mas veio para ficar", segundo seus integrantes. O objetivo é ganhar corpo para as eleições de 2008 e criar condições de lançar um nome próprio à sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2010. Formado pelos "vizinhos" PSB, PDT e PCdoB, além de outras duas legendas, o grupo se contrapõe ao projeto petista de absorver partidos "satélites" com afinidade ideológica. "Agora, criamos nosso próprio sistema solar", disse o ex-presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), enquanto preparava sua mudança da residência oficial, poucas horas após a derrota. O PCdoB de Aldo é um dos partidos que tem girado em torno do PT, desde a eleição de 1989. Apesar da disputa por espaços, essas forças fazem parte da coalizão do governo Lula e devem encontrar uma forma de convivência com as outras legendas da base aliada. "O PT conseguiu um feito, unir a esquerda, pelo menos a esquerda não-petista, em um bloco político poderoso", disse à Reuters o deputado Ciro Gomes (PSB-CE). O bloco de esquerda conta com a representação de cinco governadores, 68 deputados e 8 senadores. Tem nas suas fileiras Ciro Gomes como um possível candidato à Presidência da República após o segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Na sociedade civil, controla a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a segunda maior central sindical do País, a Força Sindical. A formação do grupo era um desejo antigo e remonta à eleição presidencial de 1989. Cogitado sempre em períodos eleitorais, acabou conquistando viabilidade após a divisão na base aliada com o lançamento de Arlindo Chinaglia para o comando da Casa, contrapondo-se ao comunista Aldo Rebelo, derrotado em segundo turno por uma diferença de apenas 18 votos. "Essa unidade talvez seja a coisa mais importante nessa brincadeira toda. A idéia é chegarmos juntos nas eleições de 2008 e 2010", contou o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), vice-líder do bloco. Chinaglia fez seu primeiro discurso como presidente da Câmara afirmando que as cizânias da eleição faziam parte do passado. Mas o PT, logo após o resultado do plenário, já calculava o tamanho do "problema". "Eles vão ter que pedir licença", disse um importante político da frente de esquerda, muito amigo do presidente Lula, antevendo uma mudança nas relações entre o bloco e o PT. O bloco foi criado originalmente como forma dos partidos assegurarem postos de destaque na mesa diretora da Casa e no comando de comissões permanentes. Outras duas siglas com representação na Câmara, PMN e PAN, também fazem parte dele. A reação de partidos de maior densidade numérica foi imediata. Com receio de perder cargos, PMDB, PT e mais seis partidos, incluindo as legendas protagonistas da crise do mensalão, uniram-se num superbloco de 273 deputados. A oposição formal fez o mesmo. Apesar do apoio a diferentes candidatos, PSDB e PFL juntaram-se ao PPS e constituíram uma terceira frente, esta com 153 parlamentares. Neste dois casos, a aliança foi conjuntural e deve ser desfeita nos próximos dias. O bloco de esquerda, apostam seus integrantes, vai permanecer atuando em conjunto não só na Câmara mas nas próximas eleições. O peso simbólico do bloco é grande, dizem parlamentares do grupo, que consideram que sua formação demarcou fronteiras partidárias e empurrou o PT para partidos mais à direita.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.