Disputa na Câmara atinge reta final com cenário indefinido

A torcida é grande e os cálculos, interessados. Na reta final da disputa pela presidência da Câmara, o cenário ainda é incerto. Apesar da aparente vantagem do candidato do PT, existe a possibilidade de a eleição só se definir no segundo turno entre os governistas Arlindo Chinaglia (PT-SP) e Aldo Rebelo (PCdoB-SP). O tucano Gustavo Fruet (PR) reúne o menor número formal de apoios, mas trabalha para conquistar votos de todos os partidos. Tanto ele como Aldo apostam nas defecções para evitar uma eliminação sumária. "Não sei. Os ´experts´ daqui (referindo-se a aliados de Chinaglia) dão como certa a vitória no primeiro turno, mas eu discordo. Acho que vai haver segundo turno", afirmou nesta quarta-feira o deputado eleito Ciro Gomes (PSB-CE). Formalmente, o petista conta com a adesão formal de um maior número de partidos. Se as traições não fossem cogitadas, Chinaglia teria a seu lado uma garantida maioria absoluta de 273 votos, exatamente o tamanho do bloco que o apóia. O candidato que atingir primeiro a marca de 257 votos, será eleito presidente da Casa. "Já não acreditava e, agora, acredito menos ainda num segundo turno. Ao formar o bloco, ficamos forçados a fazer uma placa tectônica com maioria absoluta da Câmara. Isso demonstra que a vitória de Arlindo é inexorável", rebateu o deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA). Aldo conta com o apoio formal do PFL, PSB, PCdoB, PDT. Fruet conquistou a adesão do PPS, além da própria legenda. No início de dezembro começou a briga na coalizão de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando o PT decidiu lançar um nome próprio contra a esperada candidatura de Aldo Rebelo. O deputado comunista ressentiu-se de ver um aliado do PT como adversário, pois só teria decidido concorrer à reeleição após um pedido feito por Lula, em agosto de 2006. Aldo assumiu o comando da Câmara no auge da crise do mensalão e afastou do governo a ameaça de impeachment. O presidente da Câmara tem, solitariamente, a prerrogativa de analisar pedidos de cassação do mandato do presidente da República. Aliados da esquerda passaram a questionar publicamente a "ânsia hegemônica" do PT e a cobrar uma interferência do governo para dissipar a divisão da base, mas Lula preferiu não se intrometer. Ministros de Estado pediram união, sob risco de abrir espaço para vitória de um oposicionista. A fissura na base ficou evidente quando o PMDB decidiu embarcar na candidatura de Chinaglia, após um acordo entre os presidentes das duas legendas. Dias depois, o petista conquistou o PSDB, numa polêmica decisão que dividiu a bancada oposicionista. Lideranças do partido reagiram e os tucanos foram obrigados a recuar para aderir à candidatura de Gustavo Fruet, lançado na ocasião como representante da chamada terceira via. Se o segundo turno entre Aldo e Chinaglia se confirmar, os votos do PSDB penderão para o PT, já que a legenda cedeu aos tucanos o direito de escolher a primeira vice-presidência da Casa na engenharia por cargos. "Há feridas insuperáveis nisso", alertou Ciro Gomes. Após a eleição, marcada para a tarde de quinta-feira, o governo terá o desafio de reverter a divisão interna e construir um ambiente favorável à aprovação do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

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