Disputa já afeta relações entre Brasil e Canadá

O governo já admite que a disputa comercial entre Brasil e Canadá, por causa da briga entre as fabricantes de jatos Embraer e Bombardier, começa a afetar as relações políticas entre os dois países. "Da maneira como o conflito está escalando, e com perspectivas de retaliação, só poderá afetar as relações políticas", disse o negociador brasileiro, embaixador José Alfredo Graça Lima. Na avaliação de Graça Lima, o contencioso afeta as relações bilaterais entre os dois países como um todo e o clima só será amenizado se o Canadá tomar a iniciativa, desistindo de oferecer subsídios e aplicar retaliações e retomando o diálogo. O próprio ministros das Relações Exteriores, Celso Lafer, admitiu no dia da sua posse, na segunda-feira, que o clima entre os dois países não vai bem. "Em uma relação política e comercial, o clima é essencial e o clima não vai bem", disse Lafer, que prometeu "endurecer com o Canadá".O sinal de que a briga entre as duas fabricantes de jatos já está afetando a relação dos dois governos foi dado com a escala política feita pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, em Vancouver, quando estava a caminho de sua visita de Estado à Ásia, no início do mês. Na opinião de Graça Lima, a dimensão política ao conflito foi dada pelo próprio Canadá, que propôs a escala.O governo brasileiro ainda não reuniu todos os elementos necessários para provar, com eficácia, que os benefícios recebidos pela Bombardier são ilegais. Mas o Brasil decidiu empenhar-se em mostrar à comunidade internacional que o governo canadense está exagerando ao subsidiar publicamente a Bombardier, para que a empresa ganhe concorrências da Embraer, como no caso da venda de aviões para a Air Wisconsin, no início do mês, quando o Canadá anunciou publicamente um subsídio de US$ 300 milhões a Bombardier. Na avaliação de vários diplomatas, o Canadá já está com um calendário apertado, para evitar que o clima esquente antes da Cúpula das Américas, marcada para o final de abril, em Quebec, sede da Bombardier.Na análise de especialistas brasileiros, seria uma situação delicada para o Canadá receber um país que está retaliando, em uma reunião marcada principalmente para discutir a integração comercial dos 34 países, a formação da Área de Livre Comércio das Amércias (Alca). "Em uma situação hipotética, qual seria o valor de uma oferta de redução tarifária do Canadá ao Brasil, no âmbito da Alca, se esse país estivesse retaliando o Brasil?", disse Graça Lima.Apesar de o governo canadense já ter admitido publicamente que a garantia de crédito de US$ 300 milhões dada à Bombardier é um subsídio, o governo brasileiro quer saber de que programa de incentivos saiu o dinheiro. O Brasil também vai questionar na OMC a mudança que o governo canadense fez no Canada Account, a pedido da instituição. Os canadenses alteraram esse programa, de financiamento para contratos de risco, mas o Brasil alega que a reforma não foi suficiente.O País também vai questionar o Export Development Coorporation (EDC), outro programa de financiamento às exportações do Canadá, que pode estar financiando o negócio com a Air Wisconsin.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.