''Discurso evidencia cultura patrimonialista''

O discurso dos aliados do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), em defesa dos suplentes e da falta de um padrão ético definido para o Parlamento, revela uma elite dominante que, apesar dos avanços democráticos do País, continua enclausurada em uma visão patrimonialista de fazer política. A avaliação é do cientista político José Álvaro Moisés, da Universidade de São Paulo. Para ele, a postura desses senadores mostra que eles agem "como se fossem os novos titulares das capitanias hereditárias" - sistema do Brasil colonial em que o rei dava terras aos seus apadrinhados e lhe concedia poder absoluto nessas áreas."O episódio dessa crise mostra que temos uma enorme defasagem de uma parte da elite política, que está completamente enraizada e enclausurada em uma visão patrimonialista da política, em que se aspira ao cargo e usa o cargo para benefício próprio, da família, do mesmo grupo, do mesmo partido ou do mesmo clã", afirma Moisés.Para ele, os bate-bocas travados entre os senadores Fernando Collor (PTB-AL) e Pedro Simon (PMDB-RS) e entre Renan Calheiros (PMDB-AL) e Tasso Jereissati (PSDB-CE) são "indicação de que a elite política não tem a menor noção de seu papel político e histórico". "Eles estão estritamente ligados a interesses pequenos e mesquinhos de seus grupos, sem perceber que o Senado tem uma função para o conjunto da nação. Eles interpretam aquilo como uma casa particular, como uma arena da qual eles são donos", avalia.O comportamento dos senadores, segundo o especialistas, confronta princípios básicos da democracia. "O Renan e toda tropa de choque - que já foi tropa de choque do Collor e agora defende o Sarney - defendem o que o presidente do Senado disse nesta semana, que a nação não tem o direito de julgá-lo. O que está presente nessa concepção é que eles se organizaram para chegar lá e se apropriar do patrimônio público e ninguém deveria colocar em dúvida o que eles fazem. É a total contradição com a democracia."Moisés diz que, para esses parlamentares, "a política é o acesso ao patrimônio público para fins privados". "Eu chamo isso de corrupção", diz o cientista político. "Eles são os novos titulares das capitanias hereditárias", completa.

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