Discurso do DEM esquenta clima no Senado, diz deputado

Demóstenes Torres diz que defesa de Renan foi 'burra', mas presidente da Casa não gostou e cobrou 'respeito'

CIDA FONTES, FABIO GRANER E DENISE MADUEÑO, Agencia Estado

12 de setembro de 2007 | 16h12

O deputado federal Raul Jungmann (PPS-PE) informou que o clima no plenário do Senado esquentou um pouco por conta do discurso do senador Demóstenes Torres (DEM-GO). Segundo relato de Jungmann, Torres disse que considerava "burrice" a forma de defesa adotada pelo senador Renan Calheiros, pois as provas oferecidas pelo próprio Renan foram a causa de ele ter sido condenado no Conselho de Ética.   Veja também: Ouça áudio do tumulto no Senado  Saiba como será a votação secreta no plenário   Planalto prefere José Sarney no cargo Computadores e celulares estão proibidos no plenário Para senadores, presença de deputados altera votação Julgamento de Renan começa com protesto contra sigilo     Segundo Jungmann, Renan não gostou e cobrou respeito de Torres. O senador do DEM pediu desculpas, mas afirmou que a defesa de Renan foi "pouco inteligente", porque foi a própria que levou a esta situação.   Defesa de Renan   A líder do PT no Senado, Ideli Salvatti (SC), afirmou em seu discurso na sessão de julgamento do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que o Conselho de Ética não tem provas de que a empreiteira Mendes Júnior pagou despesas pessoais do senador.    A senadora reafirmou que a bancada do PT está liberada para votar como quiser, mas, no discurso, defendeu o senador, segundo relatos feitos por parlamentares presentes na sessão secreta. "O grande erro do Renan foi apresentar documentos. E onde é que está a prova de que a Mendes Júnior pagou? O Conselho não investigou", disse Ideli, segundo anotou um dos parlamentares presentes.     O senador Almeida Lima (PMDB-SE) defendeu Renan atacando a imprensa. Um dos três relatores no Conselho e o único dos três a pedir o arquivamento do processo contra Renan, Lima disse que a disputa não é entre o senador Renan e a instituição, mas entre o Senado e a mídia, classificada por ele no discurso de "abjeta, desqualificada, torpe e impudica".   Ele disse que os senadores iriam decidir se a Casa iria se agachar perante a mídia. "Qual Senado queremos? Um Senado covarde, amedrontado, acocorado diante de uma imprensa nacional que quer nos substituir?", argumentou. "Logo, novos fatos vão ser inventados e o PSOL estará sempre aí a nos atacar", continuou, segundo anotações de parlamentares presentes na sessão.   "Para o PSOL, o Senado é uma instituição burguesa que deve ser destruída por dentro", discursou Lima. O senador Francisco Dornelles (PP-RJ) também defendeu Renan. Dornelles disse, segundo anotaram parlamentares, que não se trata de um eventual crime a ser julgado pelo Senado.   "Está em julgamento um possível crime contra a ordem tributária que só poderá ser investigado em outro plano, do processo administrativo fiscal contra o contribuinte e não no Senado da República", argumentou. "Condenar por eventual crime contra a ordem tributária pode criar um precedente perigoso que pode atingir outros (senadores)", disse Dornelles.   O senador disse que havia pressão popular, mas que a decisão dos senadores não poderia ser tomada por causa dessa pressão e que nenhum os parlamentares não estavam ali para ratificar as posições da imprensa.   O líder do PSDB, senador Arthur Virgílio (AM), relatou que o seu partido votaria a favor do parecer do Conselho de Ética. "O PSDB evoluiu na sua posição de absolver para abster, de abster para acompanhar os relatores do Conselho de Ética", disse. Mas lamentou: "É com muito pesar que entre a brilhante carreira do senador Renan e a instituição, o PSDB fica com ela, o Senado", disse.   O que pode acontecer   A previsão é que a sessão secreta dure pelo menos quatro horas. O PSDB, o DEM e o PSB foram os únicos partidos que fecharam votos contra Renan. Os demais deixaram em aberto. A expectativa é de que, pelo menos seis senadores do PMDB votem em favor da cassação. O PT está dividido e a maioria era contra Renan.   Caso o senador consiga salvar seu mandato, as pressões para que se afaste da presidência vão partir de seus próprios amigos. Na avaliação geral, o peemedebista teria perdido as condições políticas para permanecer à frente do Senado. Mas se concordar em deixar o comando do Senado, no caso de absolvido, Tião Viana tem cinco dias úteis, a partir da publicação do resultado da sessão, para convocar novas eleições e fazer o preenchimento do cargo de presidente da Casa.   Mas outra alternativa seria apenas a licença da presidência. Dificilmente ele retornaria ao cargo mesmo porque continuará debaixo de pressão por conta de outros processos que estão tramitando contra ele no Conselho de Ética. Se Renan for cassado pelo plenário, Tião Viana terá de convocar uma nova eleição para preencher a vaga e uma temporada de disputa entrará em cena. A oposição quer o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), que faz oposição ao Planalto. Os aliados preferem José Sarney, que poderia retomar o clima de normalidade e preparar a Casa para a votação da emenda que prorroga a CPMF, de total interesse do governo.   Se cassado, Renan pode perder os direitos políticos por 12 anos: os quatro que ainda restam do mandato de senador e mais oito por conta da cassação por quebra de decoro parlamentar. O suplente de Renan é o alagoano José Costa, que já foi deputado do PMDB.   Tumulto   Antes do início da sessão que julgará o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), deputados da oposição e seguranças da Casa entraram em confronto e chegaram a trocar socos. O tumulto era grande na entrada do plenário. O deputado Raul Jungmann (PPS-PE) tentava entrar, foi barrado e, no meio da confusão, ele e um segurança começaram brigar e chegaram a trocar socos antes de serem apartados. O deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) também partiu para o confronto e chegou a dar um soco em Tião Viana (PT-AC), vice-presidente da Casa e que presidirá a sessão de cassação do mandato de Renan.   Envolvida no tumulto, a deputada Luciana Genro (PSOL-RS) disse que um dos seguranças chegou a sacar um arma de choque contra Jungmann. "Felizmente ele não usou (a arma)", contou. A deputada saiu do incidente com um pequeno corte no calcanhar que disse ser decorrência de um chute que levou de um segurança. No meio da confusão, disse que perdeu um cartaz que pretendia exibir em plenário durante a votação. O cartaz dizia: "Sessão secreta é a negação do parlamento". A deputada atribuiu o incidente à falta de informação do segurança e acrescentou que se houve quebra de decoro no episódio foi com a segurança e não com os parlamentares.  Clima de absolvição  Deputados que assistiam a sessão secreta no plenário do Senado onde será votado o pedido de cassação do presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), fizeram relatos à imprensa em que comentaram que Renan estava aparentemente tranqüilo à espera da votação, indicando que ele poderia estar certo de sua absolvição. O deputado Paulinho da Força (PDT-SP) concluiu que o clima reinante no plenário era de absolver Renan. O deputado Barbosa Neto (PDT-PR) relatou que Renan está sereno. "Uma tranqüilidade surpreendente". O pedetista ainda avançou mais: "Parece que o senador já teria 45 votos. Vejo que o corporativismo está imperando. Eu sinto isso".O deputado José Carlos Vieira (DEM-SC) não se conteve ao sair do plenário. "É um clima de calma que me preocupa. Uma indefinição", relatou. Ao contrário dos deputados, os senadores adotaram discrição e evitaram dar entrevistas. Poucos saíram do plenário para não dar motivos para que alguém questionasse a legalidade da sessão por conta de vazamentos à imprensa. Como não saíram para o almoço, os parlamentares se serviam de sanduíches e biscoitos de polvilho, segundo Barbosa Neto. Duas mesas de lanche foram montadas: uma no plenário e outra no salão de café dos senadores. Os discursos continuavam e o senador Renan Calheiros ainda não havia feito seu discurso de defesa.

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