Discurso de Lula na reunião "Ação contra a fome e a pobreza"

Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na reunião de líderes mundiais para a "Ação contra a fome e apobreza", na sede da ONU.Nova Iorque-EUA, 20 de setembro de 2004 Senhoras e senhores,Como todos sabem, esta reunião é uma iniciativa compartilhada, na qual sou acompanhado pelos presidentes Jacques Chirac, daFrança; Ricardo Lagos, do Chile e José Luis Rodríguez Zapatero, do governo da Espanha.Em nome dos meus colegas, aqui presentes, gostaria de expressar nossa satisfação pelo apoio e dedicação do secretário-geralKofi Annan a esta iniciativa. Antes de dar início às intervenções formais, gostaria de propor a adoção da agenda que foi circulada a todos os participantes. E,se não há objeções com relação à agenda, poderíamos considerar a agenda aprovada. Como todos sabem, nosso tempo está limitado a três horas. Portanto, temos que ser um tanto rígidos, no sentido de manter olimite máximo de dois a três minutos para cada intervenção, após as palavras de abertura de meus colegas. Espero poder contarcom a sua compreensão, neste aspecto. Senhoras e senhores, Tenho, agora, a honra de convidar o secretário-geral Kofi Annan a proceder à sua intervenção. (Palavras do secretário-geral da ONU, Kofi Annan) Presidente Chirac, da França, Senhor Ricardo Lagos, presidente do Chile, Senhor José Luis Rodríguez Zapatero, presidente do governo espanhol, Senhoras e senhores chefes de Estado e de Governo, Senhor Kofi Annan, secretário-geral das Nações Unidas, Eu quero, em especial, agradecer a presença não só dos presidentes que estão presentes, dos ministros mas, também, dasentidades da sociedade civil que estão presentes,Minhas primeiras palavras são para agradecer às senhoras e aos senhores por haverem atendido a este chamado, que não éapenas meu, e dos meus colegas Jacques Chirac, Ricardo Lagos e Rodriguez Zapatero, com o apoio do secretário Kofi Annan. Éo chamado da nossa consciência. Esta reunião é para somar os esforços de nações, povos, sociedades e pessoas em torno de um objetivo comum: combater afome e a pobreza que ainda afligem tantos homens, mulheres e crianças no mundo.O fato de estarmos aqui, líderes de mais de 50 povos e nações, já faz crescer nossa esperança. É um gesto forte e concreto norumo de uma aliança mundial contra a fome e a pobreza.A fome é um problema social que precisa, urgentemente, ser enfrentado como um problema político.A Humanidade atingiu níveis espetaculares de progresso científico e tecnológico. A produção mundial é mais do que suficientepara saciar a fome das populações. Infelizmente, não evoluímos, ainda, a ponto de repartir a ceia do Planeta, para que todos tenham, ao menos, o alimento indispensável à sobrevivência.A fome subtrai a dignidade, destrói a auto-estima e viola o mais fundamental dos direitos humanos: o direito à vida.Hoje, tenho certeza: a nossa angústia diante do flagelo da fome é compartilhada por todos os líderes aqui presentes e porcentenas de milhões de cidadãos do mundo. Mais que isso: compartilhamos a busca de soluções. Cada vez mais lideranças,povos, nações apresentam-se para combater o bom combate.Senhoras e senhores,Em 2000, estabelecemos, coletivamente, as Metas do Milênio, dando o necessário destaque à erradicação da fome. Elas sãojustas e viáveis. Mas podem tornar-se letra morta por falta de vontade política.Não podemos permitir que isso aconteça. Seria uma frustração tremenda para grande parcela da Humanidade, com danosgravíssimos à própria paz mundial.Já não bastam as intenções proclamadas. Chegou a hora de tornar esse compromisso palpável e operacional.Não se trata apenas de cobrar dos países ricos aquilo que efetivamente podemos e devemos cobrar-lhes: uma posturaradicalmente nova e um engajamento superior, frente à tragédia absurda da fome e da pobreza.Os países pobres e as nações em desenvolvimento terão autoridade moral para cobrar dos países ricos se não se omitireminternamente, se fizerem a sua parte, se aplicarem de modo honesto e eficiente seus próprios recursos no combate à fome e àpobreza.No Brasil, estamos empenhados em fazer a nossa parte. O programa Fome Zero é um objetivo irrenunciável, que temosperseguido com obstinação. Combinamos medidas emergenciais, inadiáveis, com soluções estruturais, emancipadoras,mobilizando todos os instrumentos disponíveis.Nosso programa de transferência de renda, o Bolsa Família, já incluiu 5 milhões de famílias pobres, mais de 20 milhões depessoas; reduzimos impostos sobre os alimentos de consumo popular; estamos executando o maior programa de financiamentoda agricultura familiar da História brasileira; começamos a implantar um novo modelo de reforma agrária; aumentamos os recursos para aalimentação escolar que atende, hoje, 36 milhões de crianças carentes.Governo e sociedade civil trabalham intensamente para cumprir as Metas do Milênio. Vamos, inclusive, instituir um prêmionacional para as cidades que mais avançarem no seu cumprimento.Senhoras e senhores, Sabemos que em vários países também estão sendo feitos esforços consideráveis para combater a fome. Mas, no mundo de hoje,essa não é uma tarefa que os povos possam cumprir isoladamente. O que existe no mundo é fome de inclusão social, deoportunidades econômicas e de participação democrática.Uma política de combate à fome, imprescindível à inclusão social pela qual lutamos, supõe a retomada sustentável docrescimento econômico, com expansão do emprego e da renda de vastos segmentos de nossas sociedades, que hoje seencontram à margem da produção, do consumo e da cidadania.Supõe, também, reduzir as profundas assimetrias da economia mundial, para equilibrar o relacionamento comercial entre asnações e atenuar as pressões financeiras sobre os países em desenvolvimento.No relatório técnico apresentado por França, Chile, Espanha e Brasil são examinados alguns mecanismos inovadores definanciamento que poderão complementar os esforços atuais e suprir o conhecido déficit de recursos para o desenvolvimento.O relatório não é exaustivo, nem prescritivo. Analisa alternativas e oferece um leque de opções para o conjunto de atores:governos, organizações sociais, setor privado e indivíduos. Ele inclui medidas que demandam negociação multilateral, como taxas sobre transações financeiras ou sobre o comércio dearmas, e outras que podem, desde logo, ser adotadas de forma voluntária, a exemplo das contribuições via cartão de crédito.Senhoras e senhores,Não os convidamos aqui para discutir ou mesmo endossar os aspectos técnicos do relatório. Estes serão examinados, com anecessária profundidade, no momento apropriado.Aqui estamos para, juntos, inaugurar uma nova etapa nos esforços de combate à fome e à pobreza.Não nos esqueçamos nunca de que a fome é a mais cruel das armas de destruição em massa. A fome continua matando 24 milpessoas por dia e 11 crianças por minuto.O desafio é tão grande que nos exige humildade para reconhecer que não há soluções prontas, fórmulas mágicas e ousadia paraenfrentá-lo com a prioridade e a urgência que os famintos do mundo reclamam. A pior resposta ao drama da fome é não darresposta nenhuma.Senhoras e senhores,Apelo aos governos, organizações sociais, sindicatos e empresas para que reafirmem e ampliem seu compromisso, constituindouma vigorosa parceria global pela superação da pobreza.Para que possamos, em 2005, participar da Cúpula da ONU sobre a Declaração do Milênio com soluções, de fato, inovadoraspara erradicar esse fenômeno economicamente irracional, politicamente inaceitável e eticamente vergonhoso que é a fome.Muito obrigado.

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