Felipe Sampaio/STF
Felipe Sampaio/STF

Discurso de Fux não funciona para impor limites a Bolsonaro; leia análise

Presidente do STF faz defesa da democracia, mas horas depois presidente da República volta a atacar TSE e coloca mais uma vez urnas eletrônicas sob suspeita

Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2021 | 16h55

BRASÍLIA – Depois de Jair Bolsonaro passar as últimas semanas atacando frontalmente ministros do Supremo Tribunal Federal e ameaçando a realização das próximas eleições, não havia alternativa para o presidente da Corte, Luiz Fux, que não fosse uma resposta firme a esses ataques. Na abertura dos trabalhos do STF, Fux produziu um discurso sólido nesse sentido, em defesa da democracia, mas de pouco ou nenhum efeito sobre as ações de Bolsonaro.

Tanto que poucas horas depois, Bolsonaro aproveitou uma solenidade oficial do governo para voltar a desancar o TSE e seu presidente, o ministro Luís Roberto Barroso, e levantar as mesmas suspeitas infundadas de sempre sobre as urnas eletrônicas. Foi como se Bolsonaro dissesse que não deu a mínima para o discurso de Fux.

Aliás, a fala de Fux sequer nominou o presidente. Lembrou mais uma das dezenas de notas de repúdio que as instituições se acostumaram a emitir sempre que Bolsonaro faz suas ameaças à democracia. E que, no máximo, servem para que o presidente interrompa apenas momentaneamente seus ataques.

Essa talvez seja a maior diferença entre o tom dos ataques de Bolsonaro e a resposta de Fux. Nas últimas semanas, o presidente se referiu, seguidas vezes, ao ministro Barroso como “imbecil” e “idiota”. Também associou o ministro a um espécie de plano para eleger o petista Luiz Inácio Lula da Silva. Em ocasiões anteriores, também já tinha batido pesado no ministro Alexandre de Moraes. E vem insuflando as redes bolsonaristas contra os ministros, além de insistir em espalhar, sem qualquer prova, a ideia de que as urnas eletrônicas podem ser fraudadas.

Por causa de toda essa ação de Bolsonaro, esperava-se algo mais contundente no discurso de Fux. O discurso do ministro até cita coisas importantes. Um exemplo: “Harmonia e independência dos Poderes não implica em impunidade”. Ou que “a democracia é o exercício da liberdade com responsabilidade”. Até ameaçou ir mais longe ao dizer que “os juízes precisam vislumbrar o momento adequado para erguer a voz diante de eventuais ameaças”. Mas, como se viu no discurso feito pouco depois por Bolsonaro, a fala corre o risco de ter se transformado em meras palavras ao vento diante do comportamento imutável do presidente.

É claro que o papel que Fux representa tem limitações que o impedem de pisar fundo no acelerador contra Bolsonaro. Mas com o presidente insistindo no seu tom e produzindo um caldo de cultura contra a legitimidade das próximas eleições, a reação de representantes das instituições, como Fux, acaba tendo pouco efeito concreto.

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