Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Congresso e STF criticam discurso de Bolsonaro; militares viram meme

Um dia após falar em ‘pólvora’ para solução de conflitos, presidente brasileiro é criticado até por integrantes das Forças Armadas

Jussara Soares, Daniel Weterman, Felipe Frazão e Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2020 | 23h08
Atualizado 12 de novembro de 2020 | 12h22

BRASÍLIA - Um dia após Jair Bolsonaro reagir a declarações do presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, e admitir a possibilidade de usar “pólvora” para resolução de conflitos, auxiliares do Palácio do Planalto disseram não haver arrependimento do chefe do Executivo sobre comentários que aumentaram a tensão com o democrata americano. O discurso inflamado do presidente, na terça-feira, 10, provocou perplexidade no Congresso e no Supremo Tribunal Federal, mas se transformou em meme de guerra nas redes sociais.

“Exército brasileiro se aquecendo pra guerra contra os EUA”, dizia um post publicado na quarta-feira, 11, no Instagram, com um vídeo que mostrava oficiais rebolando. Depois de Bolsonaro afirmar que, “quando acaba a saliva, tem que ter pólvora”, o Exército virou piada.

As Forças Armadas brasileiras foram expostas ao ridículo nas mídias digitais, com imagens de recrutas pintando meio-fio com cal exibidas ao lado de fuzileiros navais dos EUA. Oficiais da ativa disseram, reservadamente, que o episódio levou a comparações “completamente descabidas”, como analisar o poderio bélico dos EUA e do Brasil.

No Planalto, porém, a “explosão” de Bolsonaro foi tratada como “pontual” e a expectativa é a de que ele volte a baixar o tom. A retomada do estilo “bateu, levou” ocorreu quatro dias depois de o Ministério Público do Rio ter pedido a cassação do mandato de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (RJ), por envolvimento no caso das rachadinhas.

Em cerimônia que tinha na plateia empresários do turismo, o presidente deu o recado que queria, consciente da repercussão, e disse que sua vida era uma “desgraça”. “Olha que prato cheio para imprensa. Prato cheio para a urubuzada que está ali atrás”, afirmou ele, apontando para o local reservado aos jornalistas.

Sem citar Biden, Bolsonaro partiu para o ataque ao comentar a ameaça feita pelo democrata, ainda na campanha, de aplicar sanções econômicas ao Brasil, caso não haja atuação firme por parte do governo para combater o desmatamento e as queimadas na Amazônia. Foi nesse momento que ele disse que uma solução apenas diplomática pode não ser possível.

"Assistimos há pouco aí um grande candidato a chefia de Estado dizer que, se eu não apagar o fogo da Amazônia, ele levanta barreiras comerciais contra o Brasil. E como é que podemos fazer frente a tudo isso? Apenas a diplomacia não dá, não é, Ernesto?”, perguntou o presidente ao chanceler Ernesto Araújo. “Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora, senão não funciona. Não precisa nem usar pólvora, mas tem que saber que tem."

Na avaliação do ex-secretário de Assuntos Estratégicos Maynard de Santa Rosa, a frase foi inconveniente. “Isso não se fala. Não cabia apelar para isso agora, uma precipitação que só atrapalha”, reagiu o general da reserva. “Em tese, Bolsonaro pode ter razão: quando falha a argumentação, o canhão é que dá a resposta. Mas teria que ser mais diplomático”.

Na mesma cerimônia, ao se referir à pandemia de covid-19, Bolsonaro disse que o Brasil precisa deixar de ser “um país de maricas” e enfrentar a doença. Depois, publicou o discurso nas redes sociais. A militância mais radical do bolsonarismo comemorou a volta do presidente ao velho figurino. Ministros do Supremo, por sua vez, consideraram um “equívoco” a estratégia de Bolsonaro de aposentar o estilo “paz e amor” e adotar um tom mais agressivo, politizando a discussão em torno da pandemia. O episódio expôs ainda mais o confronto com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

Bolsonaro está irritado com a cobrança para que se pronuncie sobre a vitória de Biden. Aliado de Donald Trump, ele continua firme no propósito de se manifestar apenas após o fim das ações judiciais movidas pelo atual ocupante da Casa Branca que, sem provas, alega fraude na votação e não aceita a derrota.

Para o senador Otto Alencar (BA), líder da bancada do PSD, o presidente criou novamente “atritos desnecessários” e deve ficar ainda mais isolado internacionalmente. “Bolsonaro critica a vacina da China, o maior parceiro comercial do Brasil, e o presidente eleito dos Estados Unidos, o segundo maior parceiro. Vai ficar isolado. Desafiar outro país não é o que se espera de um estadista”, disse Alencar.

O líder da bancada do PT na Câmara, Ênio Verri (PR), e o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) protocolaram, por sua vez, ação na Procuradoria Geral da República que acusa Bolsonaro de crime de responsabilidade por tentar impedir o desenvolvimento da vacina contra a pandemia do coronavírus, produzida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. A ação chegou à Procuradoria após a Anvisa suspender os testes clínicos para a Coronavac. Ainda na quarta, no entanto, a Anvisa voltou atrás e autorizou a retomada dos testes. /

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