'Discurso adotado por Dilma é parecido com o do Serra e Alckmin'

Carlos Melo, doutorado na Ciências Políticas na PUC-SP e professor do Insper, avalia em entrevista ao 'estadão.com.br' as perspectivas do PT para as eleições de 2012 em São Paulo

Bruno Siffredi, do estadão.com.br

25 de janeiro de 2012 | 22h17

A imagem construída pela presidente Dilma Rousseff no seu primeiro ano de governo pode ser fundamental para o PT voltar a crescer no interior de São Paulo, afirma o cientista político e professor do Insper, Carlos Melo. Segundo ele, o estilo "mais conservador e moralista" da presidente pode ditar as características dos candidatos do PT no Estado para aumentar a presença do partido nas próximas eleições.

 

Melo se baseia nos números das duas eleições presidenciais disputadas pelo PT contra governadores paulistas (2006 e 2010) para concluir que houve uma divisão no eleitorado brasileiro por faixas de renda. "O PT teve uma enorme penetração no Nordeste, Norte e nas regiões mais pobres do Sudeste e do Sul. Mas em municípios mais ricos houve uma opção pelo PSDB nestas duas eleições", observa.

 

Ele frisa que no Estado de São Paulo, onde há "municípios relativamente ricos, relativamente desenvolvidos", a divisão significou uma crescente indisposição com o PT e com a imagem do ex-presidente Lula, que para ele teria se tornado "uma figura controversa" no interior do Estado.

 

Melo classifica como extraordinário o fato de Lula ter transferido para Dilma 100% dos seus votos em SP, mas aponta como curioso o petista ter conseguido crescer no Brasil todo, menos em São Paulo, onde o partido manteve o patamar de votos em 2006 e 2010.

 

A aproximação com Fernando Henrique Cardoso e a parceria com o governador paulista, Geraldo Alckmin, segundo Melo, pode ser um dos fatores que contribuiriam para diminuir a resistência ao PT em SP.

 

Leia abaixo a entrevista:

 

Como o senhor vê a situação do PT no Estado de São Paulo, nas regiões distantes das áreas de maior influência do partido?

A situação é difícil porque sempre houve muita resistência ao PT. Também é verdade que o PT tem crescido ao longo desses anos todos. (O PT) Deu um salto, como os números mostram, de 2002 para cá. Basicamente dobrou o número de prefeituras durante o governo Lula. No entanto, Lula só começa a crescer vertiginosamente em 2008. A Dilma e o Lula, em 2006 e em 2010, tiveram em torno de 34% (fora da Grande São Paulo), que mais ou menos é o teto do PT no Estado todo. O PT parte disso, dos 30%. O Lula sensibilizou pelo câncer. O PT cresceu, tem um numero maior de prefeitos e vereadores hoje, tem a máquina, tem recursos. O PT, hoje, tem menos de 10% dos municípios e pode crescer um pouco mais, porém partidos como o PSDB, o PMDB e o PTB ainda são muito grandes e muito organizados no interior de São Paulo. São partidos mais conservadores, que despertam uma rejeição menor e têm mais o perfil do interior do Estado. Acho que o PT tem condições para crescer.

 

Após a vitória de Lula em 2002, o PT deu um salto em número de prefeituras e vereadores. Na eleição seguinte, praticamente não avançou. Como o senhor avalia a performance do partido antes e após a eleição de Lula em 2002?

Você tem aí dois pontos. Em 2000, o PT não era governo. Ainda assim, a Marta Suplicy ganha a eleição em São Paulo. O PT foi para a eleição de 2004 tendo a máquina federal, a máquina paulistana e mais organizado do que nunca na sua história. Então esse salto é natural e explicado. Em 2008, no entanto, não manteve isso. Talvez o PT tenha, em 2004, dado o salto que podia dar e tenha chegado ao seu limite. 2008 pode ser a prova dessa teoria. Por outro lado, a eleição de 2006 foi muito pesada para o Lula. Ou seja, se o Lula tem em média 40% em 2002, ele observou uma queda muito grande no Estado de São Paulo em 2006.

 

Como o senhor avalia os números de votos obtidos por Lula em 2002 e 2006 fora da Grande São Paulo?

Você tem duas coisas importantes aí. Primeiro: o escândalo do mensalão e o desgaste do PT, que têm efeito em São Paulo diferente do resto do Brasil. Segundo: em 2006, Lula disputa com José Serra, então governador de São Paulo. Em 2002, Serra não era conhecido. Em 2006 e 2010, o PT disputa a Presidência da República com os dois governadores de São Paulo. Bem avaliados e que fizeram sucessores (Alckmin faz o Serra e o Serra depois faz o Alckmin). É importante pontuar que o eleitorado do Brasil se dividiu nestas eleições. Em 2006 e 2010 houve uma divisão não só regional, mas também social do eleitorado. O Estado de São Paulo tem, de forma geral, municípios relativamente ricos e relativamente desenvolvidos, mas a composição social passa a ser contraditada com o eleitor típico do PT, que é do Nordeste e acaba sendo de alguma forma favorecido pelas políticas públicas do governo petista. Começa então a existir críticas e indisposição por parte da classe média em relação ao governo. Surge, então, uma divisão regional e de classe social do eleitorado, que começa a rejeitar o Lula e o PT. Em 2006 e 2010, essa classe agiu exatamente dessa forma.

 

E qual leitura é possível fazer da popularidade da Dilma no Estado de SP?

Dilma é uma figura menos controversa do que o Lula. As pesquisas de opinião têm mostrado um crescimento na popularidade dela no Estado, inclusive nos extratos sociais mais abastados. Porém, é preciso avaliar o impacto na figura da presidente de suas ações no primeiro ano de governo, incluindo a faxina no seu Ministério, e como mexe com a resistência por parte do paulista à Dilma. Três momentos são importantes em 2011. O primeiro é quando ela recebe Obama, se aproxima do Fernando Henrique, e depois quando ela se aproxima e fecha convênios com o Alckmin. Acredito que, no futuro, veremos se essa diminuição da resistência vai ser transferida para os candidatos do PT. E também como essa maior popularidade e maior penetração da Dilma nesses extratos médios podem ter efeito nesses municípios fora da região metropolitana de São Paulo.

 

Nas eleições presidenciais, a melhor votação que o PT teve foi em 2002. Sob a ótica apenas dos números do segundo turno, pode-se identificar uma oscilação negativa nas duas eleições seguintes. Como Dilma consegue melhor popularidade se sua imagem era totalmente vinculada ao Lula na eleição de 2010?

A Dilma teve no primeiro e no segundo turno mais ou menos o mesmo tamanho que o Lula teve. Em 2006 e 2010, Lula, em São Paulo, transferiu para Dilma 100% dos votos que ele tinha, o que é extraordinário. Mas é extraordinário também que o crescimento que Lula teve no Brasil inteiro não tenha acontecido em São Paulo. O Lula é uma figura estigmatizada em São Paulo. O discurso adotado por Dilma é parecido com o do Serra e Alckmin, campeões de voto no Estado. Ela firmou uma parceria com Alckmin que Lula não teve de 2002 a 2006, tampouco com o Serra de 2006 a 2010. No que diz respeito à popularidade, as pesquisas apontam que ela (a resistência nas classes médias e altas) tem diminuído. Depois vamos ter que ver se essa diminuição da rejeição se transfere para o PT, se ela se transfere para os candidatos a prefeito do PT.

 

Se isso se comprovasse, a Dilma poderia ter um papel mais importante que o Lula para conquistar o segmento mais conservador do eleitorado?

O PT tem adotado candidaturas mais conservadoras. Um exemplo é São José dos Campos. O PT já foi governo em São José dos Campos com uma professora, Angela Guadagnin, que foi super polemica e perdeu a reeleição. Depois com Carlinhos de Almeida, um militante estudantil que ao longo do tempo, faz uma inflexão ao centro e fica à imagem e semelhança do eleitor de São José dos Campos. O que aconteceu é que o eleitorado continua o mesmo, mas o perfil da candidatura mudou. O perfil no Estado do São Paulo vai ficando mais centrista, menos de esquerda, digamos assim. Vai se delineando como mais conservador. Na definição dos candidatos é que poderemos identificar a aposta do PT: se é mais esquerdista, o PT de ontem, ou se é um PT que depois da experiência no poder se moderou, se depois de dez anos no poder, de 2002 a 2012.

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