Discreto, Serra traça perfil de candidato

Ele fala com aliados e aos poucos amplia agenda e contatos regionais

Julia Duailibi, O Estadao de S.Paulo

23 de agosto de 2009 | 00h00

A pouco mais de um ano da eleição presidencial de 2010, o governador de São Paulo, José Serra, principal nome do PSDB na disputa pelo Palácio do Planalto, conversa discretamente com aliados, aos poucos aumenta o espaço na agenda para a política e atua cautelosamente para desembaraçar nós nos palanques regionais. Temerário de virar alvo da oposição, Serra é contra a antecipação do debate eleitoral e, até para aliados mais próximos, mantém cautela e demonstra indefinição sobre sua entrada na disputa. O que o governador tem dito: que não é fato consumado sua candidatura à Presidência da República e não seria nada constrangedor tentar a reeleição em São Paulo, onde sua popularidade alcança quase 60%. Reclama de quando é tratado como "pré-candidato" pelos jornais. O que os aliados entendem é que ele vai mesmo tentar chegar ao Palácio do Planalto.Para Serra, o lançamento precoce da candidatura contribui para antecipar o término do governo. Com alguma dificuldade, ele tem atendido à pressão de seu partido e concedido um pouco mais de espaço na agenda para eventos políticos. Este mês, visitou cinco Estados do Nordeste - a região, onde os tucanos perderam na última eleição presidencial, é vista como determinante para 2010. Em Exu, a mais de 600 quilômetros do Recife, o PSDB chegou a se mobilizar para fazer uma grande recepção na cidade em que nasceu o sanfoneiro Luiz Gonzaga. Segundo integrantes do partido, Serra pediu que não fosse dado caráter político ao evento. O beija-mão acabou sendo esvaziado.O silêncio sobre a candidatura causa, de tempos em tempos, críticas no partido. Em reunião da Executiva Nacional há duas semanas, a direção foi cobrada sobre a data de definição da candidatura. Acabou marcando reunião para discutir o tema - o "Encontro sobre Conjuntura e Estratégia para 2010" ocorrerá em 27 e 28 de agosto. "Eu achava que seria melhor antecipar a candidatura. Cobrei isso dele. Mas fui convencido de que não era a hora", disse Roberto Freire, presidente do PPS.Nas viagens, Serra acaba ajudando a desatar as alianças regionais. Avalia-se que o PSDB errou nas eleições de 2002, com Serra, e de 2006, com Geraldo Alckmin, ao não costurar corretamente acordos nos Estados. O caso mais emblemático é o de 2006 no Amazonas, onde Alckmin teve apenas 176.338 votos contra 1.159.709 de Lula. Na Bahia, no começo do mês, após encontrar o governador Jaques Wagner (PT), Serra ajudou a solucionar um grande contencioso político no Estado. PSDB e DEM estavam se engalfinhando, mas um armistício viabilizou um acordo para lançar o ex-governador Paulo Souto.A aliança com o PMDB na esfera nacional é vista cada vez mais com ceticismo. Na sigla, o governador tem um grande aliado, o senador Jarbas Vasconcelos (PE). "Se o PMDB não apoiar a Dilma, para nós já é uma vitória", disse um tucano. "Estamos fechando os acordos nos Estados, caso a caso", completou o presidente do partido, Sérgio Guerra (PE).Serra ajudou no acordo com o PMDB em 2008, que foi determinante para reeleger o prefeito paulistano Gilberto Kassab (DEM). Também se reaproximou de setores da sigla que apoiaram Lula em 2006, caso do governador do Paraná, Roberto Requião. Após romper com o PT baiano, o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), também está mais próximo de Serra. Tucanos apostam ainda na aproximação no Pará com o deputado Jader Barbalho. Em outros Estados, como Rio, Mato Grosso, Sergipe, Alagoas, Ceará e Amazonas, a possibilidade de composição está bastante difícil.Do ninho tucano, o aliado que Serra mais escuta é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Conta ainda com sua "tropa de choque" para aparar o dia a dia político. Esse núcleo duro, composto pelo vice Alberto Goldman, o secretário da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira, e o secretário de Subprefeituras, Andrea Matarazzo, se reúne quase semanalmente fora do expediente. RÁDIOOutra movimentação que tomou força foram as entrevistas para rádio, embora o governador diga que sempre as fez. Há dois meses Serra tem um programa de rádio semanal, que disponibiliza no site do governo. Cerca de 200 estações de rádio no Estado retransmitem as palavras do governador. Além disso, Serra fez uma maratona de entrevistas em rádios do Nordeste. No último mês, chegou a atender 15 emissoras.Com Serra evitando se expor, o governador de Minas, Aécio Neves, que postula a indicação para a disputa presidencial, corre por fora. Conseguiu a formalização, por parte do PSDB, de que as prévias seriam instaladas. Ele realmente quer disputar o Planalto e diz não aceitar ser vice de Serra. Aposta-se no PSDB que, se até o fim do ano, o mineiro perceber que não conseguiu condições internas para concorrer, abrirá mão das prévias.

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