Pablo Valadares/Câmara dos Deputados
Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Dirigentes do PSL agem para barrar volta de Bolsonaro ao partido

Ala contrária à volta do presidente inclui Júnior Bozzella, que comanda o PSL de São Paulo, Joice Hasselmann e Delegado Waldir

Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2021 | 10h08

BRASÍLIA - Dirigentes municipais do PSL em São Paulo encaminharam ofícios ao presidente nacional do partido, deputado Luciano Bivar (PE), para manifestar “repúdio absoluto” à possibilidade de retorno do presidente Jair Bolsonaro à sigla. Bivar tratou de avisar os correligionários, porém, que dificilmente Bolsonaro voltará para o PSL.

O movimento coincide com declarações do presidente de que pretende definir, ainda neste mês, por qual partido disputará o segundo mandato, em 2022. Bolsonaro se elegeu pelo PSL em 2018, mas se desfiliou um ano depois, após um embate com Bivar pelo controle do caixa. Nos dez ofícios aos quais o Estadão/Broadcast teve acesso, presidentes municipais do PSL e coordenadores regionais mostram inconformismo com a simples menção ao eventual regresso de Bolsonaro às fileiras do partido. Muitos dos signatários são próximos do deputado Júnior Bozzella, que comanda o PSL de São Paulo e é um dos expoentes da ala contrária ao presidente.

"Manifestamos nosso total e absoluto repúdio a essa possibilidade (de volta de Bolsonaro ao PSL), o que, sem qualquer dúvida, não apenas não coadunaria com os valores e princípios partidários, como também feriria a honra de todos nossos correligionários, que foram diretamente e brutalmente afetados pelos atos e dizeres do referido cidadão acerca da nossa legenda e correligionários", destacaram presidentes municipais do PSL nos ofícios enviados a Bivar. Boa parte dos documentos tem conteúdo idêntico.

Bolsonaro ainda continua em negociações com o Patriota, o PTB e o Progressistas. Em conversas reservadas, interlocutores do presidente disseram que para retornar ao PSL ele exigiu a expulsão de seus desafetos, além do controle das finanças do partido, sob o argumento de que isso era necessário para evitar irregularidades. Na lista dos deputados do PSL que entraram em rota de colisão com Bolsonaro estão, além do próprio Bozzella, os deputados Delegado Waldir (GO), ex-líder do partido na Câmara, e Joice Hasselmann, ex-líder do governo no Congresso.

Aluguel. Para o presidente do PSL em Presidente Prudente (SP), Lucas França Bressanin, a legenda não é de aluguel para ser utilizada por Bolsonaro enquanto ele tenta tirar do papel o Aliança pelo Brasil. Na prática, o projeto de lançamento do Aliança naufragou. Até hoje aliados do presidente não conseguiram chegar perto das 492 mil assinaturas necessárias para a criação de um novo partido.

“Onde um político adentra os quadros, desestrutura todo trabalho já realizado, derruba nominatas e, ao mesmo tempo, continua trabalhando na criação de um novo partido? Isso não é saudável nem no aspecto partidário nem no democrático. O PSL é muito maior que o presidente e seus interesses particulares”, afirmou Bressanin ao Estadão/Broadcast.

Nesta segunda-feira, 19, o presidente admitiu estar atrasado na escolha do partido pelo qual pretende concorrer à reeleição, daqui a um ano e meio. “Aliança (pelo Brasil)? Muito pequena a chance de sair. Já estou atrasado, não tenho outro partido. Espero que neste mês eu resolva”, disse ele em conversa com apoiadores, na portaria do Palácio da Alvorada. “Abril está bom. O duro foi quando eu me candidatei (em 2018), que acertei em cima da hora”.

O episódio que tornou público o racha entre Bolsonaro e o PSL também foi registrado por eleitores na entrada do Alvorada, em outubro de 2019. Na ocasião, ao ser abordado por um homem que se apresentou como pré-candidato do PSL no Recife, o presidente cochichou no  ouvido dele: “Esquece o PSL, tá ok? Esquece”. Sem nada entender, o apoiador continuou fazendo o vídeo. Bolsonaro pediu a ele para não divulgar a gravação e disse que Bivar – chamado de “o cara” – estava “queimado pra caramba”.  

De 2019 para cá, vários integrantes do PSL passaram de aliados de carteirinha a ferrenhos opositores de Bolsonaro, defendendo até mesmo o seu impeachment. O senador Major Olímpio (PSL-SP), morto no dia 18 de março por complicações da covid-19, foi um deles. Sem citar diretamente Bolsonaro, mas criticando as articulações feitas por políticos que protagonizaram “inúmeras ofensas e destratos” ao PSL, o presidente do diretório municipal de Franca, João Batista Rocha, lembrou Olímpio.

“Estamos lutando por ideias e pautas que acreditamos corretas e honradas, como fez durante toda sua vida pública o nosso amigo senador Major Olímpio", escreveu  Rocha. Bolsonaro não se manifestou sobre a morte de Olímpio e seu silêncio provocou indignação até mesmo entre aliados.

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