Dirigente do Rural confirma ligação entre Dirceu e Valério

Em depoimento à Justiça, Kátia relata, também, reuniões com ex-ministro

Leonardo Werner, O Estadao de S.Paulo

29 de janeiro de 2008 | 00h00

Em depoimento à Justiça Federal em Minas, a presidente do Banco Rural, Kátia Rabello, afirmou ter conhecimento de três reuniões realizadas entre a instituição e o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. Segundo ela, o responsável pelo agendamento do encontro foi o publicitário Marcos Valério, acusado de ser o operador do mensalão.Kátia foi interrogada na condição de ré pelos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e gestão fraudulenta. De acordo com ela, o publicitário esteve presente a um desses encontros. Os assuntos tratados, disse, versavam sobre "generalidades, vida pregressa do ex-ministro e a suspensão do processo de liquidação do Banco Mercantil do Brasil de Pernambuco".Ela definiu o interesse do Banco Rural no caso como "complexo". A instituição que dirige teria adquirido 20% do que classificou de "parte boa" do Mercantil. "O Valério foi quem intermediou essa negociação, pois achamos que seria interessante para o Rural, uma vez que ele já conhecia os procedimentos do Banco Central para a suspensão da liquidação", disse.Ainda segundo a dirigente, o ex-ministro teria dito que não poderia tomar parte nesse tipo de discussão. Nenhum retorno teria sido dado ao Banco Rural após o encontro.Kátia disse que o responsável pelas operações financeiras do Rural era o vice-presidente da instituição, José Augusto Dumont, até 2004, ano em que morreu. Ela alegou só ter tomado conhecimento das acusações após a deflagração da crise política, por meio da imprensa.Afirmou também não ter nenhuma participação nos empréstimos concedidos ao PT e à SMP&B, extinta agência de Valério. Teria, contudo, votado pela renovação dos contratos com o PT. A cifra desses empréstimos, segundo ela, era irrisória - R$ 29 milhões para a empresa de publicidade e R$ 2 milhões para o PT - diante da linha de crédito de R$ 5 bilhões de que o banco dispunha."Por isso esse total não chegava ao meu conhecimento. É realmente muito pouco perto do que detínhamos", argumentou.O crédito concedido ao PT estaria lastreado pela contribuição paga pelos membros do partido. Ela não soube dizer, contudo, se tal garantia estava expressamente prevista no contrato de empréstimo. "Banco vive de emprestar dinheiro. Se você entende que o cliente pode pagar, não há por que negar."Ela refutou a acusação de lavagem de dinheiro. Todos os empréstimos, explicou, são registrados em formulários próprios, contendo a origem do dinheiro e também quem o sacaria.José Carlos Dias, advogado de Kátia, disse que o depoimento foi tranqüilo e absolutamente normal. Para ele, não há crime ou qualquer demérito no fato de Marcos Valério supostamente facilitar o agendamento de encontros com Dirceu.

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