Diretora exonerada diz que Febem está "falida"

A diretora da Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem) de São José do Rio Preto, Corintha Maria Barreto Medeiros, que foi exonerada quarta-feira do cargo, diz que a instituição, no modelo atual, está falida. Segundo ela, não houve justificativas consistentes para sua demissão. "Foram explicações vazias e pífias."Corintha foi exonerada um dias após o Ministério Público pedir a instauração de inquérito para apurar denúncias de agressão de internos na unidade, isentando-a de responsabilidades. Em dois anos e oito meses de funcionamento da Febem em Rio Preto, já passaram por lá seis diretores, incluindo o servidor Valdemar de Oliveira, que está assumindo interinamente a direção.Segundo Corintha, foi lido um documento, ao qual não teve acesso, em que eram apontadas as razões de sua demissão. Entre eles, foi apontada a falta de perfil para o cargo. "Eles disseram que os supervisores orientavam e eu não seguia. Também disseram que eu perguntava coisas que demonstravam que não estava preparada para dirigir a entidade", lembra.A ex-diretora conta que também foi lido um abaixo-assinado feito por 52 dos 72 funcionários da unidade rio-pretense, pedindo o afastamento dela. "Alguns funcionários dizem que foi um relatório de uma reunião que haviam assinado, e não um abaixo-assinado", diz.Corintha acredita que sua demissão esteja relacionada ao fato de que, em junho passado, solicitou a instauração de uma sindicância para apurar agressões dentro da unidade, que mantém 66 internos. "Foi aí que desandou. Pedi de sete a 11 sindicâncias. A ouvidoria ouve, ouve e não dá retorno. Fica a sensação de impunidade".A ex-diretora, que completaria cinco meses no comando da entidade no próximo dia 4, diz que o maior problema é a falta de autonomia. "Você tem de provar o improvável. As agressões acontecem normalmente à noite. Os próprios menores declararam ao Ministério Público que só se sentiam seguros quando eu estava lá", diz.Para Corintha, a falência desse tipo de sistema está justamente no fato de trabalhar com funcionários sem capacitação, que aprendem em serviço. "A Febem é hoje uma instituição sem identidade, em que seus funcionários não são nem policiais nem educadores. Tem uma proposta socioeducativa boa, mas que na prática não se realiza. Encontra resistência", afirma.Em dezembro do ano passado, o então diretor da Febem de Rio Preto, Silas Pereira da Silva, e outros sete funcionários foram afastados por agressão a internos. Eles estão sendo processados por formação de quadrilha e prática de tortura.A direção da Febem em São Paulo diz que não compactua com a violência dentro de suas unidades. "Todas as denúncias de inadequação funcional são apuradas imediatamente após a comunicação dos fatos", informou a assessoria, em nota para a imprensa.Leia a seguir nota na íntegra: A direção da Febem não compactua com qualquer prática de violência em suas unidades. Todas as denúncias de inadequação funcional são apuradas imediatamente após a comunicação dos fatos. Em São José do Rio Preto, a situação não é diferente. Atualmente, há sete sindicâncias em andamento na unidade. Quatro funcionários estão respondendo a processo administrativo. Se confirmado que houve alguma ação que feriu o Estatuto da Criança e do Adolescente, os servidores serão responsabilizados, conforme determina a legislação.Todos esses fatos em apuração ocorreram exatamente durante a gestão da ex-diretora, que era a responsável pelas ocorrências, pela conduta dos funcionários e decisões da unidade. Até para evitar novos problemas como osque ocorreram, ela foi exonerada. É importante ressaltar, ainda, que nesta própria unidade foram demitidos dez funcionários, além de um ex-diretor, depois de comprovada as denúncias de maus tratos no início deste ano.Sobre a demissão da ex-diretora, a Febem informa que tomou essa decisão porque entende que ela não conseguiu, apesar das inúmeras orientações do corpo técnico da Fundação, conduzir e comandar a unidade, perdendo totalmente o controle das ações desenvolvidas no local, conforme ela mesmorelata nos depoimentos à imprensa. Desde ontem, quinta-feira, já está em São José do Rio Preto uma equipe técnica de São Paulo para garantir a harmonia e a tranqüilidade na unidade. A Febem conta com o apoio da comunidade e com trabalho sério e competente dos servidores que estão na unidade e que seguem a proposta pedagógica e socioeducativa defendida pela Fundação para o desenvolvimento de um eficiente trabalho de educação, profissionalização e a ressocialização dos adolescentes em conflito com a lei.

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