Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Direita acredita na sua própria propaganda e briga consigo mesma para apoiar Bolsonaro

Grupos de bolsonaristas creem que há reação do sistema político às ‘mudanças’ trazidas pelo novo governo e miram Congresso e STF; em dias, presidente vai do apoio à rejeição às manifestações

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2019 | 07h03

Caro leitor,

Um dos maiores erros que um grupo político pode cometer é acreditar em sua própria propaganda. Foi precisamente isso que, nos últimos dias, os bolsonaristas mais fervorosos fizeram. Depois de cinco meses de um governo criador de crises quase diárias que não o deixam caminhar, eles se preparam para levar às ruas, neste domingo, 26, seu protesto contra a suposta sabotagem que, alardeiam, o governo do capitão tem enfrentado por parte do sistema político. A agenda dos manifestantes mira o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF), alvos do mau humor regressista da massa que votou no presidente, por aporrinhá-lo por ninharias como o respeito à Constituição, observação de direitos fundamentais e uma dose de política. Mas o verdadeiro estopim da convocação foi mesmo a manifestação da esquerda que há pouco mais de dez dias protestou contra o contingenciamento de verbas do MEC.  Diferentemente do que esperavam, porém, o efeito da ideia de ir às ruas para demonizar o outro lado não foi unir os grupos pró-Bolsonaro. Dividiu-os e sobretudo confundiu-os: afinal, quem é mesmo o adversário - os esquerdistas ou os conservadores mais próximos?.

Em um momento da vida interna do PSL em que, como dizem os políticos, tem vaca estranhando bezerro, a convocação para a marcha tumultuou ainda mais o partido do governo. Seu presidente nacional, Luciano Bivar, deu uma declaração estranha, condenando as manifestações, mas considerando-as válidas. Uma das autoras do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff,  a deputada estadual pela legenda Janaína Paschoal avisou ser contra as mobilizações e pediu aos correligionários um “choque de realidade”. Em uma discussão via WhatsApp, chegou a ameaçar deixar o partido, mas depois recuou. A divisão contaminou ainda o resto da direita e gerou mais uma manchete esquisita. Segundo ela, o PSL, partido do governo, liberava seus filiados para uma manifestação de apoio a esse mesmo governo.

O bate-cabeça do PSL se deu enquanto a tensão na Câmara crescia. O presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), não gostou de saber que o líder do Governo, Major Vitor Hugo (PSL-GO), em mensagem por Whats App, tinha associado negociações com o governo a sacos de dinheiro. Rompeu com o parlamentar por Goiás,  o que obviamente não foi boa notícia para o Planalto. E o partido governista colheu uma derrota relevante na votação que tirou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do comando do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, e o repassou ao Ministério da Economia. O partido do governo foi derrotado enquanto integrantes de sua bancada, de celular na mão, em vez de buscar votos, faziam lives (transmissões ao vivo por redes social) a paritr do plenário. Questionados, os deputados afirmaram que aquela é a nova política, transmitida ao vivo para o eleitor, como mostrou o BR-18. Mas, como não há vácuo em política, senadores começaram a discutir uma agenda própria e já falam em implantar o parlamentarismo.

O presidente, em poucos dias, mudou de posição sobre as manifestações da direita. Primeiro, compartilhou um texto que falava que o Brasil é ingovernável, por causa da ação das corporações. Depois, diante de uma plateia de empresários, disse que problema do País é a classe política. Diante das reações e críticas, como a do ‘Estado’ em editorial, depois de inicialmente deixar em aberto a possibilidade de se tornar um inédito “presidente de passeata”, avisou que não irá aos atos. Os grupos radicais mantiveram sua propaganda contra as instituições. Bolsonaro, em seu já tradicional comportamento errático, que mistura o comportamento messiânico apontado por Wiliam Waack com apelos ao “povo” e recuos, avisou que “quem defende fechamento do STF e do Congresso está na manifestação errada”.

A retirada do presidente em direção ao bom senso não mudou muito as perspectivas das manifestações, ainda indefinidas. Grupos de direita mais orgânicos, como o Movimento Brasil Livre e o Vem Pra Rua, avisaram que não participarão. O empresariado, embevecido com a agenda ultraliberal divulgada pelo presidente, mas até agora só uma promessa destinada a conquistar apoio, se dividiu, diante da agenda extremista. Mas, praticamente na reta final da organização, um  grupo mais fiel, talvez temendo um fracasso que piore as coisas para o governo, alegou que a agenda dos atos evoluiu e avisou que apoiará os atos.

A mudança de pauta, porém, parece não ter sido assumida  pelos grupos mais extremistas de direita. Eles tendem a ir para as ruas com sangue na boca contra o sistema político. Talvez sonhem com uma “marcha sobre Brasília” que culmine no grito: “Vitória, salve!”

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