Direcionamento econômico gera conflito político no Itamaraty

A política do ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, de fortalecer a área econômica da diplomacia brasileira está causando reações noItamaraty. Os setores políticos reclamam de sofrer um esvaziamento. A primeira medida de Lafer, para aumentar o número de técnicos e negociadores comerciais, foi direcionar a formação dos alunos do Instituto Rio Branco para áreas comerciais. Os vinte alunos que se formam no fim do ano farão o estágio de três meses, tradicionalmente feito em embaixadas da América Latina, nas representações do governo na Organização Mundial do Comércio (OMC) e nas instiuições européias, em Bruxelas.A medida descontentou diplomatas de outras áreas, que reclamam de falta de pessoal. Lafer quer que o novo grupo de diplomatas seja formado por especialistas nas diversas áreas de negociação comercial, como regras de origem, normas de defesa da concorrência, medidas antidumping, entre outros. "O desafio maior, atualmente, está na área comercial, por causa da agenda negociadora do Brasil nos próximos anos, isso não significa que outras áreas, como política externa, direitos humanos, não sejam importantes",justificou. A ênfase na área econômica não é o único motivo de descontentamento entre os diplomatas. Nos últimos anos está havendo um engarrafamento na carreira provocado pelo excesso de veteranos. O congestionamemto impede que novas gerações ocupem cargos de comando. Mesmo postos intermediáriosacabam sendo ocupados por embaixadores ou ministros de primeiras classe, últimos degraus da carreira.O ministro admite que o problema vem desestimulando os diplomatas justamente quando o Brasil está aumentando sua inserção no contexto internacional em várias frentes e, por isso, é necessário melhorar aqualidade dos diplomatas. "A situação da carreira hoje piorou muito desde a primeira vez que ocupei o cargo de ministro em 1992", reconheceu. "Vamos buscar uma solução, mas agora a agenda de negociações do Brasil é a prioridade." A recente normativa publicada pelo Itamaraty, que obriga as publicações dediplomatas a passarem pelo crivo dos superiores, chegou a ser interpretada na casa como uma forma de os diplomatas da antiga geração, geralmente mais conservadores, controlarem as novas gerações, cuja a tendência é adotar uma reação mais agressiva nas negociações políticas e comerciais. Lafer rejeita essa hipótese. Segundo ele, a normativa publicada em fevereiro flexibilizou uma regra já existente. "Antes, todos os textos passavam pelo controle do secretário geral, Luiz Felipe de Seixas Corrêa, agorabasta que o chefe da própria divisão aprove", explicou. "O que eu fiz foi descentralizar".A discussão sobre a normativa esquentou com a demissão, na semana passada, do ministro Samuel Pinheiro Guimarães, chefe do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais (Ipri) do Itamaraty, afastado do cargo pelo ministro depois de criticar a Alca para a imprensa. Segundo Lafer, não se trata de afastar opiniões que divergem do governo para inibir o debate. Ele afirmou que Guimarães foi substituído porque suas posições "inequívocas" tiravam dele a neutralidade necessária para pesquisar o assunto. "O assuntoAlca está cada vez mais presente e o Ipri, como o instituto de pesquisa do Itamaraty, tem a obrigação de ouvir toda as opiniões para saber o que é bom e o que não é bom para o Brasil e o Samuel tem posições definidas e inflexíveis", disse.

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