André Dusek/Estadão
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Dirceu tentou interceder por negócio na Petrobrás, segundo delator da Lava Jato

Depoimento do executivo da Toyo Setal Julio Camargo encaminhado ao Supremo em um dos inquéritos envolvendo políticos cita contatos do empresário com o ex-ministro da Casa Civil

Beatriz Bulla, O Estado de S. Paulo

21 Abril 2015 | 20h15

Brasília - O executivo da Toyo Setal Julio Camargo, um dos delatores da Operação Lava Jato, afirmou em novo depoimento prestado no dia 8 de abril que o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu tentou intervir pela contratação da empresa junto ao ex-presidente da Petrobrás José Sérgio Gabrielli. O depoimento faz parte do material encaminhado pela Polícia Federal nesta terça-feira, 21, ao Supremo Tribunal Federal (STF) relativo aos inquéritos que apuram envolvimento de políticos no esquema de corrupção e propina na estatal.

Camargo disse à PF que conheceu o petista em uma festa de aniversário do ex-ministro, quando ele já tinha deixado a Casa Civil. O convite foi feito por um amigo em comum. Os dois tiveram mais de 20 encontros, segundo os relatos de Camargo, a maioria no escritório ou residência de Dirceu.

No novo depoimento, Julio Camargo afirma que tinha meios de dar suporte financeiro à Petrobrás, mas em contrapartida a estatal deveria celebrar contrato com um consórcio do qual a Toyo fazia parte. Diante da sinalização de mudança da Petrobrás desse modelo de negócio, o executivo teria buscado ajuda de Dirceu. O ex-ministro disse, segundo o relato de Camargo, "ter feito gestão junto a Gabrielli no sentido de entender por qual razão a Petrobrás havia mudado a sistemática". 


Ele declara que doou valores ao PT, mas destaca que nunca ofereceu vantagens "devidas ou indevidas" a José Dirceu. O executivo lembra de ter dado apenas um uísque e um vinho ao ex-ministro, o último como presente em um aniversário. Apesar disso, Camargo diz ter autorizado viagens de Dirceu em seu avião em "várias oportunidades", mas não se lembra de o petista ter feito menção a ninguém da Petrobrás nas viagens.

Ao Broadcast, Gabrielli disse não se lembrar de nenhuma discussão geral sobre modelo de contratação da Toyo. "Não tenho a menor ideia sobre o que se refere sua consulta. Não lembro de nenhuma discussão geral sobre modelo de contratação da Toyo e é muito difícil lembrar, sem maiores detalhes, especialmente sem relacionar qual projeto esta questão poderia estar associada. Quanto a conversas deste teor com José Dirceu tenho certeza que nunca tive", afirmou o ex-presidente da estatal. 

O advogado de José Dirceu nas investigações relativas à Lava Jato, Roberto Podval, afirmou que o depoimento de Camargo aponta que nenhum negócio foi firmado. Podval diz ainda "não ver ilicitude" no caso, vez que Dirceu não estava mais no governo e possui empresa de consultoria.

Venezuela. Dirceu e o executivo da Toyo também conversaram sobre Venezuela, segundo o delator. A Toyo enfrentava problemas na execução de contratos no País e Dirceu chegou a sinalizar que "conseguiria uma entrada" de Camargo com o presidente da PDVSA, estatal venezuelana responsável pela exploração de petróleo, de acordo com o depoimento. O executivo não teve autorização da Toyo para continuar com a negociação, conforme a delação.

Cunha. O executivo da Toyo relata ainda ter se encontrado com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), em duas ocasiões. Os dois trataram sobre questões do setor portuário. Na época, estava em tramitação no Congresso a medida provisória conhecida como MP dos portos, que regulamentou o setor. Cunha teria perguntado a Camargo se haveria disponibilidade de a Toyo, por meio de banco japonês, conseguir financiamento para projetos de investimentos nos portos.

O peemedebista teria prometido "fazer gestões" para a contratação da Toyo caso o financiamento fosse obtido. As conversas cessaram depois que Camargo afirmou que não conseguiria obter o financiamento.

Cunha disse ao Broadcast ter sido procurado por diversas pessoas na época da tramitação da MP dos Portos. Uma delas poderia ter sido Camargo, segundo o presidente da Câmara. Ele destaca que o executivo queria investir e a nova legislação previa investimentos privados em áreas externas dos portos.

O depoimento de Julio Camargo foi uma das diligências solicitadas pela Procuradoria-Geral da República no inquérito que investiga o senador Edison Lobão (PMDB). O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa disse em delação premiada que recebeu do parlamentar a solicitação da entrega de R$ 1 milhão. O doleiro Alberto Youssef disse que já foi levar dinheiro para o Maranhão em razão de uma operação com Julio Camargo e que não sabe quem era o destinatário dos valores. No depoimento do início de abril, Julio Camargo negou ter dado a Youssef valores para pagamentos no Maranhão ou para pagamentos de interesse de políticos do Estado./ COLABOROU DANIEL CARVALHO

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