Dirceu recebia dinheiro de propina, diz irmão de Celso Daniel

Quase dois anos depois de se isolar no interior da Bahia - em busca de tranqüilidade que nunca alcançou -, o médico oftalmologista João Francisco Daniel retornou ontem a Santo André para declarar que Gilberto Carvalho - secretário particular do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - lhe teria dito, dias após o seqüestro e fuzilamento do prefeito Celso Daniel, que tinha a incumbência de levar dinheiro de propina para o PT e que esse dinheiro era entregue ao então presidente do partido, José Dirceu. Foi a primeira vez que João Francisco falou publicamente sobre a história da suposta corrupção depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) arquivou pedido da Procuradoria-Geral da República, em agosto de 2002, para investigar a denúncia. "O Gilberto me disse isso em mais de uma ocasião", afirmou João Francisco, de 58 anos, irmão mais velho de Celso Daniel, executado em janeiro de 2002. Carismático, importante quadro do PT, Daniel fora escolhido por Lula para coordenar sua campanha à Presidência - missão que ficou a cargo de Antônio Palocci. Hoje, ele completaria 53 anos de idade. João Francisco voltou a Santo André para participar de uma conferência com a imprensa, realizada ontem cedo no auditório da Câmara Municipal de Santo André, ao lado do professor e irmão Bruno Daniel Filho. Eles exibiram documentos técnicos e depoimentos que constam do processo judicial acerca da morte de Daniel. "Decidimos fazer uma homenagem ao Celso, acreditamos firmemente que ele gostaria que sua morte fosse investigada corretamente, sem o surgimento de estranhos obstáculos, mas não é isso que está acontecendo", desabafou o médico. Os irmãos se declaram "indignados e revoltados", mas avisam: não vão cruzar os braços, não vão dar folga à polícia e ao PT enquanto não derrubarem a tese oficial da Secretaria de Segurança - encampada categoricamente pelo partido - que empurra o caso para a vala do crime comum. "Meu irmão foi vítima de um crime encomendado", afirma João Francisco. Ele havia falado sobre propina para o PT em depoimento secreto ao Ministério Público, em maio de 2002. Seu relato serviu de base para que a Procuradoria-Geral solicitasse ao STF inquérito para investigar José Dirceu. O pedido foi arquivado, por decisão do ministro Nelson Jobim, que alegou não ter encontrado dados que justificassem a devassa.A íntegra da entrevista está na edição de hoje de O Estado de S. Paulo

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