Dirceu nega acusação de propina e diz que situação é 'kafkiana'

Ex-ministro é citado como facilitador na liberação de verba em vídeo com prefeito de Juiz de Fora

13 de junho de 2008 | 16h25

O ex-ministro e deputado cassado José Dirceu (PT) negou nesta sexta-feira, 13, em seu blog a acusação de que teria intermediado a liberação de R$ 70 milhões para a prefeitura de Juiz de Fora, cujo prefeito, Alberto Bejani, foi preso na última quinta na Operação Pasárgada da Polícia Federal. "Quero repelir e repudiar a acusação infame e vil de que possa ter participado de qualquer trato para liberar recursos em troca de propina", afirma. Dirceu diz estar indignado com o que chama de "situação kafkiana", em referência a obra de Kafka, em que o protagonista é preso sem que tivesse cometido crime algum e não sabe por que nem por quem foi acusado.   Veja também: PF prende prefeito de Juiz de Fora Em vídeo, Bejani recolhe dinheiro e fala de Dirceu Ministro nega pressão de Dirceu por verba a Juiz de Fora   Na última quinta, um vídeo divulgado no site da revista Época mostra Bejani recolhendo sacos de dinheiro - supostas propinas pagas por um empresário - enquanto fala de um encontro que teria em Belo Horizonte, horas depois, com o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, para tratar da liberação de R$ 70 milhões para a prefeitura. "Sabe quanto isso dá de comissão? R$ 7 milhões", diz o prefeito. O ex-ministro nega que tenha se encontrado com Bejani, diz que está à disposição da Justiça e da PF para qualquer esclarecimento e não teme investigações.   O vídeo foi apreendido pela PF na primeira fase da Operação Pasárgada, em abril passado, quando o prefeito foi preso pela primeira vez. Os responsáveis pela investigação descobriram, segundo a Época, que a gravação foi feita por um empresário que supostamente pagava propinas para o prefeito. De alguma maneira, o material foi recuperado por Bejani e guardado na prefeitura, onde acabou apreendido pela PF.   Além de Bejani, a operação da PF prendeu outras 12 pessoas suspeitas de integrar esquema de liberação irregular de verba do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). O suposto esquema teria causado rombo de R$ 200 milhões nos últimos três anos. Foram expedidos 47 mandados de busca e apreensão, além da apreensão de carros de luxo e imóveis na capital mineira, em Juiz de Fora e em Cabo Frio (RJ). Cerca de 200 agentes federais participaram da ação.   A nova fase da Pasárgada apura relações entre a Prefeitura de Juiz de Fora e as de outros municípios com prestadoras de serviços contratadas sem licitação. Numa empresa investigada, em Belo Horizonte, os policiais apreenderam US$ 700 mil em ações ao portador de offshores no Uruguai, cuja autenticidade ainda será comprovada.Bejani foi preso em casa, por volta das 6 horas. Segundo o delegado Moretti, há indícios da procedência ilícita do montante de R$ 1,120 milhão em espécie encontrado na casa do prefeito quando foi preso pela primeira vez. A PF também achou indícios de fraude em sua versão: ele alegou que os recursos vieram da venda da Fazenda Liberdade, no município vizinho de Ewbank da Câmara. De acordo com Bejani, a propriedade (de 92,41 hectares) foi vendida por R$ 1,2 milhão ao advogado Marcelo Abdalla da Silva. À PF, Abdalla confirmou o negócio, mas não reconheceu o dinheiro apreendido na casa do prefeito e foi indiciado. Posteriormente, o advogado afirmou que estava recebendo ameaças para não divulgar à polícia informações sobre o caso. "Ele (o prefeito) alegou que era um contrato de compra e venda de uma propriedade. Nós obtivemos indícios, provas, de que não foi esse contrato que deu origem àquele dinheiro", disse o delegado. "Nós desconstituímos essa alegação. Por enquanto, ao nosso ver, esse dinheiro não tem procedência comprovada. Ou seja, ele pode ser produto de ilícito."A Câmara de Juiz de Fora já instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar Bejani pelas suspeitas de liberação indevida de recurso do FPM, desvio de verbas e enriquecimento ilícito. (Com Eduardo Kattah, de O Estado de S. Paulo)

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